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Festa da Juventude Algarvia

em Bela Mandil, no dia 23 de março de 1947,

Um pouco de História, sobretudo para os leitores jovens:

 

Em 1946, estava criada em Lisboa uma Comissão Central de jovens democráticos, de que faziam parte Mário Soares, Júlio Pomar, Fernando Pulido Valente, Octávio Pato e outros, com a sigla: MUD Juvenil, ou Movimento de Unidade Democrática Juvenil, com o objetivo de abranger o maior número possível de jovens. Era um Movimento antifascista contra a Ditadura que vigorava em Portugal havia quase 20 anos, numa altura em que, terminada a 2ª Guerra Mundial que destruiu mais de 50 milhões de seres humanos, a luta pela Paz e pela Democracia assumia uma dimensão quase Universal.

No mesmo ano (1946) constituiu-se no Algarve uma Comissão Distrital de jovens, com sede em Faro, visando alargar a todos os concelhos o objetivo de mobilização do maior número possível de rapazes e raparigas. Pertenciam a essa Comissão: António Ramos Rosa, Galamba da Rocha, Duarte Infante; e rapidamente, no mesmo ano, quase toda a província estava representada neste movimento. Em Olhão, faziam parte desta organização: Raúl Martins Veríssimo, Manuel Madeira, José Lopes de Brito que por terem sido presos pela Pide (Polícia Política), em breve foram substituídos por Joaquim Carlos Silvestre e outros. Em Tavira faziam parte da Comissão, Epifânio Soares Correia, Pedro do Nascimento Mestre e outros; em Vila Real de Sto. António, Maria das Dores Medeiros, Manuel Calvinho, António Ferreira e outros; de Silves, Joaquim do Nascimento Ventura e outros; de Portimão, José Domingos e outros; de Lagos, António Pedro Correia Vilar e outros; Jovens conhecidos dos arredores destas localidades faziam parte do conjunto dos que deslocassem até Olhão.

A iniciativa de comemorar festivamente uma semana consagrada à Juventude, partiu da Organização Internacional do Movimento Juvenil e Portugal aderiu por decisão da Comissão Central de Lisboa que, rapidamente comunicou às distritais do país, nos moldes e comportamentos acima referidos. Assim, a Comissão Distrital do Algarve comunicou às autoridades a realização do encontro juvenil, solicitando a respetiva autorização que foi indeferida, logo, resolveu fazer-se por iniciativa própria a grande reunião e combinou-se pedir autorização ao Dr. Justino Bívar, em Faro, que era o proprietário da mata de Bela Mandil, um belo espaço para juntar os jovens do Algarve que aderissem ao convite. Para combinar as formalidades do contacto com o Dr. Justino Bívar, resolveu-se que seriam o Ramos Rosa e o Raúl Veríssimo a efetuar o contacto, tendo em vista que o Raúl tinha sido escuteiro e acampado algumas vezes com os colegas sob a direção do Sr. João Trigueiros, sendo o Rosa, para o efeito, um intelectual bastante conhecido e admirado em Faro (e não só).

Obtida a autorização para acampar nos terrenos arborizados da mata, a que não faltavam espaços livres e água, estabeleceu-se a data de 23 de março (1947) para a realização do evento e foram enviadas cartas a todas as comissões concelhias indicando as formalidades a serem observadas, desde a indicação do local da concentração e dos meios de transporte a utilizar (autocarros, comboios, etc.), sendo o primeiro local de encontro a estação de Olhão (paragem de comboios e autocarros) onde estaria um amigo (Joaquim Carlos Silvestre) que indicaria a todos o trajeto até à Mata.

Chegada a hora combinada, de acordo com os horários dos respetivos transportes, eram frequentes os grupos de rapazes e raparigas com volume de mão contendo refeições, instrumentos musicais e outros objetos fazendo parte de complementos para um dia bem passado em alegre companhia de todos.

Referimos estes pormenores, porque, a breve trecho, muita gente da terra, que assistia a estas movimentações, se interrogava e fazia eco do que estaria a acontecer (não se sabia onde) para tanto movimento fora do vulgar. Contamos este aspeto do acontecimento, porque supomos que seria natural que as próprias autoridades locais assumissem conhecimento desta realidade e tomassem providências que, só mais tarde, tiveram efeito.

No local da mata escolhido para a concentração festiva da juventude, foram instalados aparelhos de comunicação, suspensos das árvores (pinheiros e eucaliptos), com uma estação central, onde qualquer um dos jovens podia comunicar com todos, em palavras lendo poemas e mensagens ou com música, animando o convívio.

A formalidade da abertura do congresso, através da leitura de um manifesto, foi efetuada pelo Ramos Rosa e nela se dava conta dos objetivos a atingir com este encontro, realçando a solidariedade entre a juventude e a luta pela existência de um mundo melhor de paz e bem estar para todos, desejando-se para Portugal um regime político de liberdade e democracia para todo o povo, em que a juventude tinha direito e o dever de participar.

Por volta das 13horas, era já elevado o número de participantes e, sendo tempo de almoço, fizeram-se várias rodas, onde todos, sentados no chão, trocavam refeições, mensagens, informações entre si, ao som da música adequada à situação, ou de informações dos organizadores, a partir da central de comunicação.

Alguns delegados das comissões concelhias e/ou outros jovens presentes neste ambiente festivo, usaram da palavra para possíveis esclarecimentos de dúvidas, pedidos de informações necessárias ao prosseguimento da organização local da juventude ou leitura de mensagens e poemas de alegria e regozijo pela confraternização manifestada nesta festa.

Entretanto, organizaram-se bailes ao som de músicas tocadas por amadores que trouxeram os instrumentos, ou de discos que faziam parte do equipamento de comunicação. Decorria, pleno de satisfação e alegria, este congresso, quando, inesperadamente, foi interrompido por uma brigada da PSP que intimou os jovens, na pessoa de um organizador, a suspenderem imediatamente as atividades e retirarem-se sem delongas, porque estavam cercados pela GNR que os obrigaria, se fosse necessário, a dispersar pela força.

Perante esta anomalia impensável os jovens, até aí afastados em grupos, uniram-se mais e mais e começaram a protestar em coro, cantando o hino nacional, enquanto um dos mais responsáveis, o Ramos Rosa, depois de combinar com outros colegas, resolveu pôr condições, junto da brigada, que seriam: 1º permitirem que ele encerasse o acampamento com um discurso de felicitações a todos (seriam, segundo a Polícia, cerca de mil); 2º saírem do campo juntos e não dispersos, como a polícia pretendia; 3º protestar junto do Governo, contra o procedimento das autoridades, visto tratar-se de uma reunião de trabalho cultural e patriótico.

Nesta altura, já quase toda a assistência se tinha unido, primeiro vaiando a polícia, depois, por advertência dos mais responsáveis, emitindo palavras cordatas de aceitação condicional.

Finalmente a polícia, após conferenciar com, possivelmente, superiores hierárquicos, presentes mas até aí não intervenientes, resolveu aceitar as condições por nós propostas, iniciando-se a saída compacta da multidão juvenil, cercados desde o início por guardas armados da GNR, mas cantando em coro canções musicadas por Fernando Lopes Graça, que quase todos aprenderam nas suas terras, como aconteceu em Olhão com a assistência de um técnico muito competente e responsável (o Sr. Sola), que exercia profissionalmente essas funções; também os jovens de Silves, em grande número, tinham recebido lições de canto coral por mestre competente, assim como os de Vila Real de Stº António e outros que agora «unidos como os dedos da mão» cantavam pela estrada, de Bela Mandil a Olhão, em fila compacta ladeada pela GNR armada até aos dentes.

À entrada da então Vila de Olhão, os guardas tentaram separar a parte de traz da imensa fila, mas não conseguiram, devido à unidade compacta dos jovens, agora reforçada por muitas pessoas que aderiram pelo caminho à imensa «procissão» cantante. No entanto, mais adiante, antes da ponte da CP, já quase no centro da Vila, talvez em desespero ou com ordens superiores, foram disparados tiros de metralhadora ou de espingardas automáticas, certamente para o ar, mas o chapéu de um condutor de carrinha puxada por muar, foi atingido por uma bala, andando depois o chapéu de mão em mão exibindo-se o furo. A multidão dispersou-se então, seguindo para os seus vários destinos.

Este acontecimento teve um efeito «explosivo» no país e no estrangeiro, tendo havido estações emissoras de rádio na Europa que o retransmitiram. Poucos dias depois a Pide recomeçou a prender jovens e adultos em todo o país, começando pelo Algarve.

Texto: Manuel Madeira
Fotografias: Duarte Infante

 

Outros links sobre o assunto:

Não apaguem a memória!

Vídeo sobre a comemoração efetuada 60 anos depois (2007)