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O Rei de Andorra

Preâmbulo

O principado de Andorra tem dois príncipes: o representante máximo da República Francesa, ou seja, o seu Presidente da República, e o Bispo catalão de Urgell, residente em Seu d'Urgell, que obviamente apenas delegam o seu poder simbólico em representantes próprios.

Sucede que em Julho de 1934, um russo aventureiro chamado Boris Skossyreff que tinha fugido da revolução bolchevique em 1917, protagoniza uma extraordinária aventura de tentativa de usurpação do poder do País e autoproclama-se Príncipe de Andorra em representação do rei, representado pelo herdeiro da coroa francesa na época, o Duque de Guise, a quem declarava vassalagem. No mesmo momento, declara a guerra ao Bispo de Urgell!... Este, em 20 de Julho, manda-o prender e extraditá-lo em 19 de Novembro de 1934 para Portugal.  De alguma forma, este rei – caricatura, que segundo o mito foi um autêntico rei por alguns dias, acabou por passar alguns meses em Olhão (de 18 de Maio a 9 Novembro de 1935), na tentativa de conseguir um transporte marítimo para Marrocos.

São muitos os olhanenses mais velhos que ainda se lembram deste príncipe, que deixou aliás uma imagem de respeito e simpatia.

Era frequente ver Boris ir à ilha do Coco para dar algumas braçadas. O marítimo Corta-Machados (alcunha) era o dono da embarcação a remos que levava Boris, e este gostava de remar em parelha. Corta-Machados, quando sentia que Boris não o acompanhava no remar, dizia-lhe de forma bem olhanense: - Rema daí, mano Rei! E assim se reforçou a crença que os olhanenses, no seu modo próximo de tratar os outros, até tratavam os reis por manos…

Francisco Fernandes Lopes privou com este “mano-rei”, e escreveu um artigo dividido em pelo menos 6 números de “O Diabo” em 1935, e que aqui se apresentam. Posteriormente, este russo continuou a ter extraordinárias aventuras e nunca deixou de escrever a Francisco Fernandes Lopes, sendo a última carta conhecida a de 23 de julho de 1965, a anunciar a morte da sua esposa.

Resumidamente, sobre a sua vida podemos dizer que Boris nasceu em 12 de Janeiro de 1900 numa família da pequena aristocracia de Vilna (na época incluída na Rússia mas que posteriormente passou para a Polónia e actualmente é a capital da Lituânia) que se exilou no Reino Unido após a revolução russa de 1917.

Durante a 1ª Guerra Mundial colaborou com o destacamento militar britânico na Rússia czarista, havendo suspeitas de ter trabalhado como espião ao serviço de Sua Majestade (qual 007…) tendo viajado pela Sibéria, Japão, Estados Unidos.

Devido à sua colaboração com os ingleses foi o único elemento masculino da família a conseguir fugir da revolução bolchevique e passou a viver algum tempo na Inglaterra.

Há relatos de problemas recorrentes com as autoridades britânicas, geralmente devido a passagem de cheques falsos, que o levam à expulsão do Reino Unido. Tais problemas repetem-se no continente, levando-o à prisão em vários países europeus. Aparentemente Boris reagia como um jovem russo "branco", expulso do seu país, habituado ao luxo aristocrático, mas sem rendimentos e sem apoio familiar, com o problema maior de ser apátrida, sem conseguir provar a nacionalidade porque os arquivos do seu nascimento terão sido destruídos em Vilna. Em 1922 adquire um passaporte holandês  e passa a explicar que o conseguiu porque a Rainha Guilhermina I da Holanda, lhe reconhece a ascendência na sua dinastia de Orange. No entanto, atualmente sabe-se que esta explicação é uma das muitas mistificações criadas por Boris.

Em 1925 conhece uma mulher francesa com algumas posses, 15 anos mais velha, chamada Marie Louise Parat de Gassier, com quem casa em 1931. Este casamento, que parecia ser meramente de conveniência, iria tornar-se uma relação duradoura e muito estabilizadora para Boris, que deixou a partir deste momento de reincidir nas anteriores atividades de escroque com cheques falsos. No entanto, algum tempo depois parte para Palma de Maiorca e depois para Andorra acompanhado por diversas mulheres, sempre diferentes...

É em Andorra que vive a sua maior aventura política! Acompanhado por uma sua alegada amante inglesa, que fazia de secretária, e uma milionária norte-americana (Florence Marmon, que em muitas publicações e também nos artigos que seguem de Francisco Fernandes Lopes, está incorrectamente escrito “Mazmon”) tenta tornar-se monarca em Andorra. Quando é preso, a justiça espanhola descobre que Boris já tinha sido expulso de Maiorca em 1932, onde vivia com Florence Marmon!

Da sua prisão em Madrid é colocado na fronteira portuguesa dia 19 de novembro de 1934, onde é genericamente bem tratado pela polícia e os novos amigos, mas continua tentando voltar a Andorra e, com esse objetivo, chega a Olhão em 18 de Maio de 1935, para de aqui seguir numa embarcação para Marrocos  Graças aos esforços do advogado Dr. Carlos Fuzeta e outros amigos olhanenses, Boris consegue finalmente um passaporte e sai de Olhão em 1935 para Génova, onde não o deixam desembarcar, e segue para Marselha onde finalmente desembarca para se reencontrar com sua esposa francesa, em Saint-Cannat. Em França a polícia apreende-lhe o passaporte no dia 7 de Janeiro de 1936 (Diário de Lisboa de 16-6-1958 e 5-7-1958; Heraldo de Madrid de Junho de 1936). Boris telefona aflito ao Dr. Lopes para este contactar o então ditador português - Oliveira Salazar - para que este interceda diplomaticamente por ele, o que parece ter sucedido! Provavelmente depois de 3 meses na prisão em Aix, as autoridades francesas voltam a recambiá-lo para Portugal (Diário de Lisboa de 16-5-1936, p.2), onde chega dia 12 de Maio com a esposa, cães e carga, e onde é novamente preso por não ter autorização de residência (Século de 19-5-36). Em Junho de 1936 regressa a Espanha mas com o início da Guerra de Espanha segue em 1936 ou 1937 para França onde volta a ser preso (Diário de Lisboa de 13-7-1937) em Saint-Cannat.

1938 é um ano mais calmo para Boris pois as autoridades francesas, não sabendo o que fazer com ele, vão-no tolerando em Saint-Cannat, mas com o final da Guerra de Espanha são criados vários campos de refugiados em França, onde as autoridades aproveitam para internar indesejáveis como Boris, pelo que em Fevereiro de 1939 regressa à prisão no campo de Rieucros. No final do ano de 1939 (ou seja, no início da guerra) é transferido para o campo militar de Verner d'Ariége e só em Outubro de 1942 é libertado quando se oferece para trabalhar na Alemanha, juntamente com muitos outros refugiados destes campos. Graças a uma prima residente em Berlim e com simpatias nazis é recrutado para a frente russa, onde foi intérprete do exército alemão. Consegue também que a sua esposa francesa vá para Berlim acompanhá-lo. Este ato é revelador da ligação estável que Boris tinha com a sua esposa, que ia muito para além da mera conveniência, pois que neste momento não havia nenhuma...

Com a vitória dos aliados, Boris é primeiro preso pelos americanos e depois dum breve período de liberdade, volta a ser preso em 4 de Dezembro de 1946 pelos franceses que ocupavam Berlim. Na prisão de Coblence-Metternich onde permaneceu até dia 17 de Dezembro é muito maltratado pelos gendarmes franceses devido ao seu colaboracionismo com os nazis.

Passou a ter residência em Boppard (Alemanha Ocidental) mas por qualquer razão ainda não esclarecida (o mais provável é ter sido numa missão secreta a mando dos recém-criados serviços secretos alemães, às ordens dos americanos na sua luta contra os soviéticos) deslocou-se à zona controlada pelos soviéticos em 1948 e acabou por ser preso e condenado a 25 anos de trabalhos forçados num campo da Sibéria em 1950. Foi libertado em 1956, graças a um acordo político que beneficiou cerca de 10.000 soldados alemães que ainda se encontravam presos na União Soviética, voltou para Boppard, enviuvou em 1965, voltou a casar em 1969 com uma rapariga 39 anos mais nova que ele, divorciou-se no ano seguinte, e morreu só em 1989!

O percurso de Boris é verdadeiramente bizarro!

A parte conhecida até à aventura andorrana parece ser uma sucessão de vigarices próprias de um jovem entre os 20 e os 25 anos, sem apoio familiar, que pretendia sobreviver sem trabalhar, de forma aristocrática mas sem recursos. As várias informações recolhidas por historiadores como Gerhard Lang e Alexander Kaffka dão nota deste perfil de aventureiro imoral (ver as notícias sobre as suas aventuras sexuais no Palma Post e no Maiorca Sun de 1933) à procura de poder e dinheiro. No entanto, com o seu casamento, algo parece ter mudado radicalmente em Boris que se transmuta num combatente romântico com valores e uma ética. Por exemplo, se Boris tivesse querido fazer de Andorra apenas um simples paraíso fiscal, como os seus detratores contemporâneos afirmavam, como se explica que Boris tenha manifestado ao Dr. Lopes o seu horror ao capital estrangeiro que salta as fronteiras? Veja-se o que o Dr. Lopes escreve sobre Boris:

Quanto à acção de D. Gil,... recordemo-nos de que D. Boris é  protestante, ao passo que Sua Ex.ª Reverendíssima, o dr. Guitart, é bispo («les ministres et les évêques de France n'etaient' ils pas catholiques, Henri IV étant protestant...?» - segreda-me Boris...).

Pelo que respeita aos socialistas, Boris não é decerto socialista – nem de cátedra... nem de... fábrica. O que ele me diz é que é decididamente contra qualquer dos três únicos poderes que, na sua maneira de ver, conduzem o mundo: a judiaria, a maçonaria, e o jesuitismo, explicando-me que não é anti–semita por sentimento rácico mas apenas porque os judeus têm as finanças na mão (ex. o «Federal Reserve Bank» que empresta o dinheiro para fazer guerras e revoluções em toda a parte, pertence aos judeus Kuhn e Loebe); não é anti-maçon e anti-jesuita, senão porque é contra toda e qualquer associação secreta, forçosamente hipócrita e pescadora de águas-turvas. Politicamente entende indispensável a existência de oposição, que se resume na fórmula «laisser dire»: tal e qual como entre nós pensava, (nota ele) o grande Rodrigo da Fonseca Magalhães...   

Socialmente é absolutamente contra o capitalismo, explicando-me que todo o capital de um país deve ser aplicado nesse mesmo país -«nationalisme integral»-, e que todo o capital emigrante, por denunciar desconfiança na actividade económica nacional, deveria ser impiedosamente confiscado, forma segura de o obrigar a ser nacional. Assim não se trata de fazer guerra «douce» à Plutocracia abstracta, mas sim a guerra aberta ao Capitalismo concreto, forma única de dar trabalho a toda a gente. Boris não é pois comunista. Recordo-lhe a conhecida sentença do pai do positivismo: «Le communisme ne se laisse réfuter que par solution des problèmes qu'il pose". E Boris responde-me: "Oui: August Comte à raison».

 Também, se Boris era um simples aventureiro oportunista, como se explica que tivesse recusado a residência portuguesa (ver artigo saído no jornal Diário de Lisboa em  5-7-1958, escrito por Francisco Fernandes Lopes) argumentando que não queria perder a sua ligação a Andorra?!

E se o seu casamento foi apenas oportunista, porquê esforçar-se por mandar vir a sua esposa para Berlim em 1943, quando ela era na altura apenas um fardo?

Quanto às alegações de Boris ter frequentemente serviços secretos estrangeiros a apoiá-lo, existem diversos estudos e factos que corroboram a possibilidade de colaboração de Boris com o serviços secretos britânicos, alemães e russos.

Um dos factos mais intrigantes de Boris é saber como ele conseguiu sobreviver como prisioneiro de guerra nas mãos dos russos, sendo ele um traidor!

A história de Boris em Portugal tem ela mesmo questões intrigantes. O novíssimo regime do Estado Novo de Salazar tratou genericamente bem Boris, sobretudo no princípio. Não só lhe deram a possibilidade de residir em Portugal como parece que Salazar poderá ter intercedido por ele quando lhe retiraram o passaporte português no seu regresso a França ( artigo saído no jornal Diário de Lisboa em 16-6-1958 , escrito por Francisco Fernandes Lopes ).  Por outro lado, como vem no texto saído no Diabo, de Francisco Fernandes Lopes, Boris recebe um primeiro apoio em Portugal de Rolão Preto, traduzido através de uma carta de recomendações e o primeiro contacto que Boris teve em Portalegre, com o advogado António Ferro. Rolão Preto estava então exilado em Espanha, a residir na casa de José António Primo de Rivera, o fundador da Falange Espanhola e filho do ex-ditador Miguel Primo de Rivera. Rolão Preto foi o mais destacado nacional-sindicalista do País, monárquico e com grande proximidade na época com o nazi-fascismo internacional! Estando Rolão Preto em casa de José António Primo de Rivera, em Madrid, em Novembro de 1934, exatamente quando Boris esteve preso em Madrid e daí foi libertado para Portugal, é óbvio que houve um apoio direto desta direita monárquica e fascista a Boris. É isto indício de colaboração com os serviços secretos alemães da época? Não há certezas e a verdade é que depois de uma pesquisa efetuada nos Arquivos do Instituto Diplomático sobre a correspondência das embaixadas portuguesas de Madrid e Berlim em 1934, não encontrámos nenhuma referência a Boris, pelo que se torna improvável qualquer influência pelo menos diplomática, tanto de Berlim como de Madrid.

Seja como for, Boris teve um triste destino depois de sair de Portugal, embora sempre revelando uma extraordinária capacidade de sobrevivência… Como ele se deve ter arrependido de ter recusado a residência portuguesa! E como ele se deve ter tantas vezes lembrado dos bons momentos que passou no Algarve, dos passeios que fez em Olhão à ilha do Coco, à Culatra, a Monte Gordo, Albufeira, Praia da Rocha, Monchique!

 

Estes artigos de Francisco Fernandes Lopes que seguem em baixo, foram publicados no jornal O Diabo e recolhidos pela APOS (Associação de Valorização do Património Cultural e Ambiental de Olhão) na Biblioteca Nacional, onde estão gravados em microfilme, correspondem aos números 55 (14-7-1935) 56 (21-7-1935), 62 (1-9-1935), 63 (8-9-1935), 64 (15-9-1935), 65 (22 -9-1935).

Chama-se a atenção que corrigimos alguns erros detectados na versão publicada e modernizámos um pouco a linguagem do texto, esforçando-nos por melhorar a fluidez da leitura sem pôr em causa o conteúdo (p. ex.: substituímos alguns parêntesis por vírgulas e modernizámos a acentuação das palavras, etc.).

Ilustramos o texto com recortes jornalísticos da época (citados por Francisco Fernandes Lopes) e algumas fotografias que pensamos serem verdadeiramente históricas e originais de Boris I, primeiro rei e... único de Andorra! …

Disponibilizamos também os artigos de Francisco Fernandes Lopes publicados no jornal Diário de Lisboa de 16-6-1958 e 5-7-1958 que são extremamente importantes para esclarecer a trajectória de Boris até 1958.


Túmulo de Boris em Boppard, na Alemanha
(foto cedida por Gerhard Lang))

António Paula Brito

2014

PS: agradecemos a Gerhard Lang as preciosas informações que nos forneceu sobre a vida de Boris, assim como a cedência da sua foto do túmulo de Boris e as referências a artigos publicados em periódicos portugueses..

 

 


 

Tragicomédia andorrana

 

I - De como o «rei de Andorra» veio parar a Olhão

 

Sábado, 18 de Maio, pelas 21h30, entrara para jantar.

Sentado já à mesa, minha mulher vem e diz-me em tom de graça:

- Senhor Pai, faça favor de jantar depressa e de se preparar para receber um Senhor Príncipe …

- Algum príncipe encantado?!

- Sério: o senhor Príncipe de Andorra! Veio há pouco procurá-lo e ficou de voltar às 10 em ponto.

Sentia-me fatigado, tencionava jantar descansado, deitar-me cedo... e retorqui:

- Que maçada!...

Mas dispus-me ao sacrifício.

Ouvira já dizer, durante o dia, não sei a quem, que estava em Olhão o rei de Andorra - ao que eu associara umas reminiscências de qualquer coisa lida e vista no Ahora há meses, um ano ou mais.

- Mas como veio esse homem parar cá a casa?

 

 
Desenho de Adriano Batista, artista olhanense da época, saído no “O Diabo” em 14-07-1935 

 Então contaram-me que, ouvindo tocar a campainha, minha filha Melusina fora à janela ver quem era. E vira dois homens, um em cabelo e de casaco encarnado-escuro, e outro que, entrado na escada, tornara a sair e perguntou se eu estava. Não percebendo o que ele queria, foi Melusina ao patamar da escada e abrira a luz. Então, o do casaco vermelho subira até meio, e perguntara qualquer coisa em linguagem espanholada, falando no dr. Líster Franco. Melusina, conhecendo o dr. Líster Franco, figurou-se um momento se o outro homem seria o pai do dr., o pintor Líster Franco… e respondeu que eu não viera ainda jantar. O homem do casaco, delicadamente, disse então que voltaria às 10 horas.

No entretanto, minha filha Belkiss que fora com a criada fazer umas compras a uma loja vizinha, ouvira ali uma mulher do povo que tendo passado pela minha porta lhe diz, ipsis verbis: - «Ai menina, que grande medo! Foi agora ali a sua casa um homem de casaco encarnado e umas grandes barbas, parecia, assim, algum rei ou bruxo!» Ao que o Joaquim, rapaz da loja que não acredita em fantasmas, calmamente obtempera que era um homem que andava aí - parece que era um príncipe - vestido à sporting (queria dizer que o tal casaco era às riscas vermelhas e pretas, as cores do Sporting Club Olhanense…).

Contando-se-me isto enquanto eu jantava, minha mulher acrescentou que já na tarde anterior, o Rui Madeira (filho de um colega meu, garoto estudante e humorista, que vem muito cá a casa) lhe dissera que estivera no Café Avenida com o Mário Domingues, «repórter» do Detective, e acrescentara com ênfase, dando-se ares, para rir:

- Senhora Dona Raquel já hoje estive falando com um rei: o rei Boris que está aí...! - mas julgando gracejo, minha mulher não acreditara.

Ouvindo a narração circunstanciada, eu jantara no entretanto. E... dez horas acabavam de soar no relógio da torre da igreja... le voilá.

Vou ao corredor, abro a porta, e, na luz da escada que ele abrira já, dou de cara com uma figura basanée, em décolleté, blazer de lã às riscas negras e vermelhas, alto, forte, de monóculo no olho direito, barbicha negra, satânica, cabeleira negra penteada, ar desportivo aristocrático. Inclina-se delicadamente e apresenta-se-me:

- Boris, prince d'Andorre.

Esboço um gesto de grande surpresa, aperto-lhe a mão e convido-o a entrar.

Sentamo-nos no meu consultório e conversamos. Como ele fala português com mais dificuldade, conversámos em francês que ele fala como se fosse língua sua natural. E conta-me então que estando em Olhão, de passagem para Tânger, de onde seguirá para França, o dr. Mário Líster Franco, de Faro, lhe falara em mim, como intellectuel e conhecedor de Olhão. Agradeço-lhe a visita. Pergunto-lhe como e quando viera, quando tencionava partir e em que barco seguiria. Explica-me então, sorrindo, que está viajando, por assim dizer, incógnito, como jornalista... e com o mesmo sorriso, mostra-me o passaporte, onde leio: Boris, barão de Skossyreff... jornalista. Conta-me como, dada a sua urgência em partir, Mário Domingues o encaminhara a sair pelo Algarve. Chegara no dia anterior a Faro, na companhia de Mário Domingues, que se avistara com o dr. Líster Franco, a ver se arranjaria barco. Não conseguindo nada, e tendo casualmente encontrado Romanini (derniére incarnation, julgo eu, do famoso tenor absoluto Romão Gonçalves), este lhe aconselhara vir a Olhão de onde mais facilmente poderia seguir. E depois de se avistarem na sede da Comissão de Turismo com o dr. Líster Franco que fora da mesma opinião, haviam os três (Romanini, Domingues e ele) seguido para Olhão na mesma tarde. Em Olhão, Romanini levara-os a um amigo com quem, parece, já fora a Marrocos - José da Mónica - e tendo este encetado démarches, que pareciam dar resultado, retirara-se Mário Domingues para Faro, onde esteve de novo com o dr. Líster, e de onde nessa noite regressou a Lisboa.

Mário Domingues pedira a Romanini para dizer ao José da Mónica que Boris, barão de Skossyreff, era jornalista estrangeiro que ia a Marrocos fazer reportagem, desejando viajar por aqui, em barco típico.

Na noite, José da Mónica, no Café Avenida, fizera-o travar conhecimento com várias pessoas, para ele conhecer o ambiente olhanense. Hospedara-se no modesto hotel Antónia [na Rua dos Murraceiros, atual R. Patrão Joaquim Casaca], guiado pelo Romanini, e hoje, por indicação de José da Mónica fora estar com o capitão do porto. Em face do passaporte, dissera-lhe este que lhe era necessário consultar as estâncias superiores, pois era a primeira vez que se lhe apresentava o caso de um passaporte de estrangeiro sem nacionalidade (conforme o carimbo que o seu tem). Julgara de seu dever revelar ao capitão do porto, dado este reparo, quem realmente era… E então, fora por ele aconselhado a dirigir-se a Faro, ao Departamento Marítimo, onde efectivamente foi, com o dr. Líster, e onde o comandante Ramalho lhe declarou que já respondera ao telefonema do capitão do porto de Olhão, dando as ordens necessárias para ele poder partir, restando apenas que tratasse do caso com a Polícia Internacional. Então, lembrara ele ao dr Líster que, para evitar dificuldade com a polícia, seria talvez conveniente procurar o governador civil para que este visasse o passaporte para Marrocos; e, com efeito, s. ex.ª recebera-os amabilissimamente e pusera no passaporte o seguinte, que me mostra e eu leio: «Visto e bom, para seguir para Marrocos, saindo pelo porto ou fronteira que lhe convenha».

Depois disto, voltara para Olhão e na noite viera procurar-me.

Fala-me agora da sua estada em Lisboa, desde há uns 6 meses, da gente intelectual com quem privava, entre outros o dr. Manuel Anselmo (que só conheço de nome e de retrato) o dr. Rui Santos (filho do meu velho amigo António Santos e que eu conheço muito bem) e Mário Saa (igualmente do meu conhecimento). A este propósito, falamos - pêle-mâle - da Espanha, da Europa actual - ditaduras, comunismos, nacionalismos, realismos, barafunda económica, moral e religiosa do desastrado planeta que habitamos... A esta palestra animada tem assistido, quási desde o início, um amigo meu, que, vindo procurar-me por acaso, eu mandara entrar e lhe apresentara: Alexandrino Passos, cirurgião-dentista, combatente da Grande Guerra, em África, e espírito curioso e observador.

No desenrolar e revolutear da cavaqueira, referindo-me eu ao caso de Andorra, ouvimos um esboço da sua odisseia tragicómica, que, sob a aparência de comédia, seria na realidade uma tragédia, presentemente no 2° acto - depois do 1º, representado em vários quadros, largamente projectados pela imprensa ibérica: prisão em Seu d'Urgell, séjour de 4 meses na Cárcel Modelo madrilena, expulsão com despojo total e exórdio de 25 quilómetros, à pata alpergatada, desde a fronteira, com mais uns cinco dias de repouso em quarto particular do Governo Civil da capital, para averiguação. Porque nesta altura - 2º acto - estar-se-ia diante de uma nova encarnação do Judeu-Errante ...

Através do que ele narra, vejo a sua situação: este homem, que não é um criminoso em sentido nenhum e em cuja estada em Portugal a polícia competente declarou não ver inconveniente algum (pois a sua expulsão de Espanha fora determinada por motivos de política interna que nada nos afectam), este homem está no entanto tornado um indesejável que todavia se não expulsa, mas amavelmente se despede, com um passaporte concedido dez dias antes... Passaporte para Paris, válido para uma só viagem (conforme leio), mas passaporte com o qual ele poderá talvez dar a volta ao mundo, durante um ano, mas com o qual não poderá decerto chegar, senão clandestinamente, ao seu destino consignado!... Isto, supondo que possa sair daqui... porque antevejo que não haverá talvez mestre de barco que queira arriscar-se a levá-lo, por mais garantias que as autoridades de cá lhe dêem... Equívoco, por certo, mas equivoco fatal...

Por um momento ficamos apavorados, olhando-o. Tento distrair e digo-lhe sorrindo com esforço:

- Alors ... de Boris, vous voilà devenu Ahas... vérus?!(1)

- C'est exact.

Temos conversado muito tempo.

É tarde. Combinamos vir ele amanhã, domingo, pela tarde. Trar-me-á o seu dossier de recortes jornalísticos, espanhóis e portugueses. Tentarei descer ao fundo deste abismo... e depois iremos passear, a mostrar-lhe Olhão, do alto dos mirantes mais altos.

 


 

 

II - De como em Olhão o seu mistério se desvenda.

Em Olhão (ou não fosse “olhão”) não há mistério que resista... Nem as próprias moiras encantadas conseguiram manter-se, e as derradeiras então nem mesmo de bioco cor da noite!

Tudo pois, o que em Olhão se passa, quasi logo em Olhão se sabe.

Assim, não só na própria tarde da chegada, Boris, barão de Skossyreff, jornalista, se via despojado do seu incógnito (por alguma indiscrição, ou reconhecimento casual), mas logo na manhã seguinte à inicial entrevista nocturna comigo, muitas e das mais desvairadas conjecturas especiosas se me apresentaram por parte de pessoas curiosas acerca do rei ou príncipe de Andorra...

- Hum!... Aquilo é mas é algum espião ao serviço da polícia que anda a sondar os intelectuais e muita outra gente...

- O figurão é um aventureiro vulgar que vive à custa da tal americana ou inglesa milionária a quem se meteu na cachimónia ser rainha de Andorra…

- É um pobre diabo, coitado, inofensivo, um maluco qualquer, visionário e … aldrabão por dever de ofício...

- Não, não... Este tipo deve ter alguma coisa de escuro na crónica: e, se calhar, meteu-se a querer ser rei para tapar a vigarice, mas saiu-lhe o jogo furado...

- Qual! Ele deve ser de facto jornalista, e tudo isto não passa mas é de um espantoso golpe, combinado com as autoridades de vários países... Esperem-lhe pela reportagem sensacional qualquer dia, em qualquer colosso da imprensa americana.

Três horas da tarde. Boris aparece em minha casa, com o seu dossier debaixo do braço. Cabeça ao vento e ao sol sempre, mas hoje, domingo, bem vestido e calçado, fato de passeio de boa roupa, elegante, de colarinho e gravata, fumando – fumador contínuo de cigarettes.

Falo-lhe das suspeitas arquitectoradas pelas cabeças de Olhão e da inviabilidade local do mistério.

- Il faut vous résigner: vous êtes à Olhão...

- Ah! Oui. Tant mieux.

E estende-me o dossier.

Percorro-o atentamente e vou-lhe fazendo perguntas para me esclarecer. Vai-me respondendo, sem sofismas, ou indicando-me que prossiga a encontrar a resposta... E deste longo exame, libérrimo e elucidativo, resenhando dados da jornalagem castelhana e lusitana arquivada e da fonte viva que os rectifica ou corrobora, consigo, criticamente, pôr a claro a história que depois se verá.

Fechado o livro sobre a última notícia - a notícia de Faro, com data de 17, que o dá como tendo seguido viagem embarcando num pequeno vapor da carreira para Marrocos (!) - dupla ou tríplice mentira, porque ele está aqui e não chegou a embarcar, e nem daqui há carreira de vapores para Marrocos - saímos a tomar ar, pelo esplêndido cair da tarde.

Subimos ao alto mirante da casa que habito e em face do panorama ouve-me com visível interesse um pouco da história primitiva desta terra curiosa. Descendo à soteia e desfrutando uma vista diversa, faz-me perguntas e observações de sociólogo culto e interessado sobre a vida local e sobre a situação da mulher portuguesa e a sua educação, bem como sobre os cómicos flirts dos homens casados às courtisanes dos Maxim's... E no terraço de baixo ainda a sociológica palestra se prolonga (para quem ignore Olhão, e creio que continuam neste número os intelectuais visitantes recentes, devo explicar que a casa que habito é uma espécie de pirâmide de três degraus, tipo não muito raro em Olhão...).

Da esquerda para a direita: Mário Líster Franco, Boris, Francisco Fernandes Lopes, numa açoteia olhanense.

 

Descemos à rua e vamos - linha recta - em passeio pela nova avenida que a prolonga até à estrada nacional alcatroada... Muita gente vem de lá de cima. Ah! esquecia-me que é dia de grande epidemia futebólica - tifo exantemático do Portugal. Desta vez, grande desafio com o celebérrimo ex-campeão daqui [de acordo com informação dada por Manuel Afonso Ramires tratou-se de um jogo entre o Futebol Clube do Porto e o Olhanense que se saldou por um empate a 4-4] … Conversando e parando, um episódio policial intercala-se: já na nova avenida, entre a multidão que vem desabando, vemos, num momento em que paramos, um homem parado também, a alguns passos, que no entanto retoma a marcha; levanta a aba esquerda do casaco e delicadamente, evidenciando a chapa policial, se dirige a Boris e lhe pede os documentos. Boris mostra-lhe o passaporte e o homem apenas lhe observa que o prazo expirará... E tão delicadamente se despede como o abordara. Era um agente da Polícia Internacional de Vila Real de Santo António, que decerto não viera aqui expressamente para procurar Boris...

Continuamos, agora pela bela estrada alcatroada, e no dilúvio contra o sol poente. Indico-lhe a arena do futebol, mas quero mostrar-lhe o campo de ténis, vasto e elegante, onde o meu colega Bernardino é pontífice. Admira a boa disposição e o jogo, como conhecedor, e apresento-o ao meu colega.

Vamos mais depressa. Quero levá-lo ao panorama magnífico e diverso do alto mirante do dr. Fuzeta, e o sol vai a sumir-se quási.

Primeiro terraço florido, que ele fica admirando e apreciando, enquanto eu vou pedir ao dono da casa a permissão costumada. O meu amigo dr. Fuzeta janta, conversamos um momento do caso andorrano, e mostra curiosidade em conhecê-lo. Viremos amanhã à noite, pois está cheio de afazeres.

 


Casa do Dr. Carlos Fuzeta

 Subo com Boris à soteia e ao mirante. Admirável! E ali falamos longo tempo da sua situação, de Mário Saa, e da forma de a resolver...

Descemos e despedimo-nos.

Um encontro casual no cinema (o Salão Apolo, da primeira e julgo que única cooperativa de espectáculo que houve no país, obra minha de há vinte anos...) dá ocasião a que lhe apresente o meu colega Roma da Fonseca e a que Boris me informe de notícias que acabara de obter sobre barcos que partiam prestes. Acompanho-o ao Café Avenida, informo-me e tanto o meu colega como eu e outros amigos ainda o dissuadimos de sair pela barra de Vila Real (o que, segundo me diz então, também o Governador Civil igualmente lhe aconselhara).

Combinamos no dia seguinte procurar o mestre do primeiro barco a partir. Não havia nenhum. Mas alguns dias depois, lá fomos de facto na sexta-feira, 24, a casa do Mestre Casaca, meu conhecido e amigo. E exposto o caso, e mostrada e efectivada da parte do mestre do barco (o seu filho) toda a boa vontade em o transportar, bem como por intervenção do dr. João Cardoso, a quem eu apresentara igualmente Boris, removidas quaisquer possíveis dificuldades por motivo da necessária vistoria ao barco, tudo parecia arrranjado. Boris mostrava-se tranquilizado, quando... na segunda-feira de tarde me entra pela porta dentro, com o filho Casaca e recebo deste a declaração seguinte: que tinha muita pena de me não poder ser agradável, mas que não podia levar aquele senhor a Gibraltar, (seu destino) sem que da parte da polícia inglesa de lá tivesse aqui a garantia de que o deixariam desembarcar a fim dele tomar vapor e seguir depois para Tânger!... Mostrei-lhe o absurdo do seu pavor, observando-lhe que o passaporte de Boris tinha o visto do consulado inglês em Lisboa, conforme ele já vira... Mas Casaca filho não se dava por convencido e insistia, dizendo-me:

- O Sr. dr. compreende: se ele não puder desembarcar… eu não o posso trazer para cá, porque o capitão do porto me disse que o não tornariam a receber cá… E eu não o hei-de jogar ao mar nem ficar com ele a bordo!...

Eu tornava a insistir que tal hipótese não se poderia nunca dar, tendo no passaporte o visto do cônsul inglês de Lisboa... Boris dizia-me que, na verdade, o rapaz estava com um cauchemar... Eu continuava a recordar ao Casaca que o passaporte estava em regra (e nem se poderia admitir que o não estivesse, demais tendo sido confirmado pelo Governador Civil e em seguida pelo Administrador do Concelho de Olhão, em 24). Mas ele não se demovia. Em face disto acabei por lhe dizer que se fosse, em paz, e o Sr. Boris esperaria outro barco cujo mestre não tivesse um pesadelo tão terrível!...

Foi-se. Boris ficou. Olhando-me, exclamou: Voilá! Eu estava embaçado. Boris continuava pretendendo que - pouco lhe importava que fosse do lado dos maçons, dos judeus ou dos jesuítas - um poder oculto qualquer o perseguia... Tentei dissuadi-lo de tal delírio querendo atribuir o fracasso apenas ao infantil pavor do rapaz. Mas Boris teimava que não, que o rapaz tinha razão, porque outra coisa certamente havia na sombra…

Devo acrescentar que durante todo o tempo que aqui tem estado, Boris não cessa de manifestar a sua gratidão pelas autoridades portuguesas, o que mais tem em mim confirmado a suposição de que o que com ele se passa não represente no fundo senão um equívoco, um destes insignificantes qui-pro-quo iniciais que depois burocraticamente se mantém pela própria inércia e possível insuflação de qualquer mesquinha vingança secundaríssima.

Outra tentativa, e desta vez da parte do próprio Administrador, me contou depois Boris: com ordem do Governador Civil de facilitar, por todos os meios, a sua saída, foi o mestre de barco João da Costa solicitado a levá-lo para Marrocos. Mas como João da Costa ia para Casablanca, pôs como condição o visto do cônsul francês no passaporte. Boris, neste caso, nem sequer tentou obter aqui tal visto, porque já em Lisboa no Consulado Francês se lhe declarara a impossibilidade de visar um passaporte cuja validade expira com o termo da viagem!...

Como Boris tivesse de continuar, assim, por mais algum tempo, forçadamente, em Olhão, e, por acaso, visitasse a Pensão Helena, que lhe agradou, resolveu entretanto mudar-se, vindo a ficar num quarto vasto de duas camas e duas janelas – por sinal (fiz-lho saber depois) a antecâmara do gabinete de trabalho do defunto poeta João Lúcio.

Ao espírito de Byron, que o inspira, poderá associar-se o de João Lúcio, que paira sempre ali... Tanto mais que a tragicomédia continua, como se verá.

 


 

III - De como «reina» em Olhão

Visivelmente, Boris aborrece-se em Olhão...

Fuma e tenta distrair-se... Em vão, porém.

Passeios na área da vila, banhos na ria, petiscos nos pinheiros de Marim ou na ilha fronteiriça, com a rapaziada amiga que o trata com dignidade e com ele simpatiza – nada porém o distrai.

Fuma, bebe o seu «porto» e o seu vinho verde, procura activamente meio de transporte legal e digno, espera forçadamente e... resigna-se...

Os dias passam-se... Dois, três dias se passam por vezes sem que o veja...

Escreve entretanto a amigos de Lisboa a tentar ver se, dadas as dificuldades inevitavelmente consequentes dos termos em que o seu passaporte se encontra, a situação se modifica, dando-se-lhe um passaporte em condições de poder sair daqui sem receios por parte de quem o leve e de poder entrar no país de destino sem ser como um criminoso qualquer, clandestinamente, sujeito a ser preso, quando menos para averiguações.

Os dias vão passando e... nada de novo nesta frente... meridional.

Boris, para a hipótese extrema de não ter outro remédio senão sair daqui às ocultas – visto não haver mestre de barco que não tenha os mesmos receios que o Casaca (pois o caso tornou-se conhecido e, naturalmente, todos agora se esquivarão...) – Boris tem descido até procurar, embora por intermediários amigos, as condições de um transporte desta natureza. E o curioso é que, clandestinamente, não faltaria quem o levasse! Espantoso absurdo, à primeira vista; realidade coerente, no entanto, porque de um homem transportado fora da lei não há que dar conta a nenhuma autoridade, e assim ao poder deixá-lo onde ele quiser, ele que se entenda depois com a fiscalização do país onde se entranhou... Mais: como o caso de Boris não oferece perigo para eles, até se têm chegado a oferecer!... Ah! mas agora, provavelmente conluiados, o preço do serviço é que subiu, naturalmente: os 150 escudos do transporte legal que na clandestinidade se esticam ao máximo de uns 400, têm-se visto flutuar, à roda de uns 3 a 4 contos, desde o mínimo de uns 2 e pico até ao descaramento de uns 10!... Ao pirata que, radiante já, se acercou de Boris com a expectativa desta sorte grande, respondeu Boris placidamente, perguntando-lhe se ele não conhecia o director da casa dos loucos!...

Uma destas propostas esteve em vias de resolver a situação: o intermediário garantia que não pediriam mais de uns 900 escudos... Boris cederia até um máximo destes, dado também o desejo, e, mais do que desejo, necessidade de se não esterilizar e enervar aqui. Mas qual! Eis que, contra o cálculo apontado, não querem menos de dois contos e quatrocentos!

Um amigo então, conhecedor destas démarches, lembra a Boris uma outra solução: tendo um pequeno barco de recreio, à vela e com motor, matriculado como tal num clube náutico, ir a Marrocos levá-lo!... Demais este amigo tinha que ir, proximamente, avistar-se com uma pessoa de família que lá reside!... Oiro sobre azul, pois. Simplesmente, o barco está desarmado, o motor está carecendo de uma ligeira reparação... Boris acolhe com júbilo a solução salvadora; e, cavalheiresco sempre, propõe tomar à sua conta a despesa, declarando, à minha vista, que lhe era infinitamente mais agradável gastar, mesmo que fosse mais, com esta reparação que ficava constituindo benefício a um amigo, do que deixar-se roubar por bandidos que especulavam com a situação ilegal e indigna que o seu passaporte lhe criara.

Alentado por esta esperança e resolvido a esperar mais os quinze ou vinte dias que o mecânico especialista calculara indispensáveis para o conserto e afinação do motor, Boris, sociólogo, entretém-se agora observando usos e costumes pelos bailes dos mastros dos Santos foliões... O calor, horrível, começa... Boris, num banho de mar, tem um dia uma lipotimia que inquieta os companheiros... Aconselho-o a suspender a violência desportiva marítima... Mas sinto que Boris, circulando em terra exclusivamente, se enfada «como o marinheiro que deixasse o mar e se fizesse tecelão...»

Desta monotonia, um verdadeiro «coup de théâtre» (como ele o crismou) vem sacudi-lo, sábado, antevéspera de S. João...

Alguém me contou que, regressando de Lisboa, o Governador Civil, ouvindo na própria carruagem ferroviária dizer que o «rei de Andorra» ainda estava em Olhão, declarara que o ia mandar prender...

Sabedor disto, aconselhei Boris a ir informar-se do dr. Líster Franco sobre o que haveria de verdade nesta balela...

Tendo eu tido que ir de manhã cedo a Faro e regressando numa camioneta do meio-dia, encontro-o casualmente: fora logo de manhã procurar o dr. Líster, que lhe dissera não haver nada de novidade, que estivesse tranquilo...

Ora... seriam umas quatro ou cinco horas da tarde, estava eu na minha consulta... vem um rapazito amigo e diz-me que o príncipe de Andorra me mandava dizer que fora levado para Faro com dois guardas, por ordem do Sr. Governador Civil; e que telefonasse eu ao dr. Líster Franco se queria saber notícias dele... Fiquei espantado! Que diabo de complicação teria sobrevindo, que nova maquinação contra o impotente Judeu-Errante inofensivo, pessoa de conduta limpa (na frase do seu ilustre advogado espanhol D. Luiz Barrena), cavalheiresco e nobre, teriam tramado os seus inimigos ocultos?... E para quê, afinal também, um aparato policial tão inútil a respeito de um homem que não pode fugir e cuja dignidade pessoal o faria comparecer imediatamente à mais ligeira indicação para apresentar-se no Governo Civil... Certamente, conjecturava eu, desnorteado, de grande e horrível crime se trataria...

Dispunha-me a descer para telefonar ao dr. Líster Franco, quando, assomando-me por acaso à janela - que vejo?

Boris, na companhia de um rapaz, atravessando a rua e entrando na minha escada!

Vou recebê-lo – ou, antes, já ele avançava para o meu consultório:

 

-Alors!... Quel nouveau crime?...

- Voilá! Un vrai coup de théâtre qu'on me joue!... José Avelino peut vous le raconter...

 

E, então, José Avelino, um rapaz amigo, daqui, que foi meu aluno no Liceu, conta-me que fora, acompanhando Boris (por andar aqui muito com ele, e estar ao facto das diligências feitas para a sua saída) no automóvel que Boris pagou, com uns dois polícias. 0 Sr. Governador Civil recebera o Sr. Príncipe muito bem, (estavam presentes o dr. Bento Caldas e o tenente Rosal), mas mostrara-se muito admirado de ele ainda não ter partido! O Príncipe explicara-lhe que nenhum empenho fazia em estar em Olhão, sendo-lhe evidentemente muitíssimo mais agradável, com o calor e o mau cheiro, estar em Lisboa ou no Estoril... Então, o Governador Civil, cheio de autoridade, pedira o passaporte a Boris e dissera-lhe, lendo-o diante de todos, que, sendo o passaporte válido para uma única viagem a Paris, ele não tinha que ir para Marrocos, mas para França... Por que motivo queria então ir para Tanger ou Gibraltar? Boris, com dignidade, explicara-lhe que precisamente porque não pudera ir de Lisboa directamente para França, pois o cônsul francês em Lisboa não quis visar um passaporte cuja validade expira com a chegada àquele país... Então o Governador, secamente, perguntara-lhe se ele julgava que obteria de um cônsul francês em Marrocos algum visto que lhe permitisse seguir; ao que Boris, decididamente, respondera que sim... Então perguntara se havia alguma possibilidade de sair, já em vista: e Avelino explicara-lhe o que se tinha passado nas várias démarches e que comprovava a vontade de Boris em partir, e dera conta da última tentativa, no barco, filiado no Clube Naval, que estava a arranjar. Perguntando o Governador se demoraria ainda muito, Avelino respondeu-lhe que o mecânico do motor calcularia uns vinte dias. S. Ex.ª achou que era muita demora... mas em seguida, dizendo que esperassem, porque ia telefonar para Lisboa a tal respeito, voltou, passados pouco menos de uns dez minutos, dizendo que estava bem, que ele concedia até um mês!... E ao polícia disse: que Boris estava livre, e que participasse ao Administrador que o caso estava arrumado.

E voltaram os três.

Boris acrescentou sorrindo que esta aventure policière lhe custara: 20 escudos de transporte e... seis de cerveja, porque realmente fazia muito calor.

Passados dias, domingo, 30, à hora da missa do dia, Boris manda pedir-me para o acompanhar a tirar o retrato naquela ocasião. Supus que se trataria de tirar o retrato juntamente comigo, como recordação, dada qualquer oportunidade fotográfica… Vou imediatamente à Pensão Helena e conduzem-me ao quarto de Boris...

Conheço a casa muito bem, de ter ali estado com João Lúcio muitas vezes, de ter ali estado no próprio dia do meu casamento, sendo João Lúcio primo-irmão de minha mulher e tendo sido uma das nossas testemunhas... Vendo Boris junto a uma das janelas quási me figuro estar vendo no mesmo sítio João Lúcio no dia em que sua mãe se enterrou...

Boris que acabara de tomar o pequeno almoço - figos lampos e leite – explica-me então que me pedira para eu vir aqui, por que estava aí um agente da Polícia Internacional que o procurara muito amavelmente a fim de Boris tirar o retrato (caso não tivesse nisso inconveniente) e de lhe falar da sua situação aqui... Como o referido agente falava muitíssimo bem espanhol, Boris estava receoso de algum disfarce jornalístico ou policial espanhol... Por isso desejara que eu assistisse...

Saímos com o dito agente (que eu então reconheci ser o mesmo que nos abordara na tal tarde do futebol do Porto) e que me pareceu ser uma pessoa que eu conhecera há anos...

Reconhecido que eu me equivocara, foi o dito agente amável ao ponto de me declinar sua identidade - Ventura Jesus Anacleto - perguntando-me se haveria algum fotógrafo que estivesse aberto naquele dia. Disse-lhe que sim, o fotógrafo Veiga, por exemplo; e acrescentando ele que Boris estava autorizado a permanecer até 15 de Julho, fomos conversando sobre a sua estada ali, a sua conduta, o seu passaporte e as dificuldades que lhe tinham advindo da própria redacção deste e da estupidez dos mestres de barco locais, bem como da tratantada dos contrabandistas (o que indignou o Sr. Anacleto); havendo, no entanto, a acrescentar a tentativa briosa e cavalheiresca do José Amarelo, que uma tarde me procurara, oferecendo-se-me para conseguir, com o maior desinteresse, transportar Boris a Marrocos, livrando-o da exploração indecente que os outros queriam fazer!... Mas, depois, não me aparecera mais… preso que fora em Tavira, conforme me contaram, por um conto de vigário a um montanheiro, com uma máquina de fazer notas falsas, para intrujar... os turcos e os chineses em Marrocos!

Tiradas as fotografias, e sempre em conversa amena e interessante, acompanhámos o Sr. Anacleto à estação do caminho-de-ferro, despedimo-nos e voltámos.

Em Olhão, Boris, barão de Skossyreff, conde de Orange, príncipe de Andorra, tem as simpatias de toda a gente: dos que simplesmente o vêem, pelo seu ar desempenado e superior de pessoa que incontestavelmente se não deixa confundir com qualquer meliante ou aventureiro suspeito; dos que o têm conhecido ou com ele privam, pelo seu porte distinto e inconfundível de aristocrata de raça, pela cultura superior do seu espírito, pelo cavalheirismo perfeito do seu carácter... Na Sociedade Recreativa – o clube chic da vila, onde as senhoras e as meninas, vindas a dançar à roda do mastro arvorado no pátio interior, vasto e aprazível, olham com curiosidade a sua figura estranha – não são vadios nem meliantes que cercam Boris e com ele conversam: são pessoas das mais representativas do burgo...


Fotos de Boris tiradas no Fotógrafo Veiga, em Olhão
13 de Julho de 1935

E no entanto...

 


 

 

IV - Das cartas que escreve & das que recebe

 

E, no entanto, Boris, em Olhão, não cessa de se enervar – Prometeu agrilhoado...

 

Escritor, cultivando la manière forte, ei-lo, por exemplo, como se desentranha, apesar de tudo, neste trecho de uma carta a um amigo lusitano, literato:

 

La chaleur est accablante ici; ou a des difftcultés à penser et, malgré cette espèce de dolce far niente, impossible de dormir la nuit! J'en suis las. Las de cette végétation bipède qui m'entoure; las des parfums nauséabonds et orientaux pour lesquels on a trouvé ici un sobriquet galant de marée basse, mais dont l'origine, selon moi, n'est que matière fécale; las de conter mon histoire dans ce cadre tellement peu romantique que Schéhérézade-méme y aurait renoncé, préférant aller resider aux jardins d'Allah, oú, comme chacun sait, Mahomet a fait voter la loi de prohibition dêfendant que l'on y boive les nectars d'Ibérie.

 

De resto, dos seus amigos de Lisboa, raros se ocupam já dele... como se estivesse moribundo, não estando simplesmente lá. Histéricos – ou histriões (ambos começam por h...) – passaram-lhes os ataques, ou reentraram na tenda, finita la comédia... E todavia, ele não se queixa: a uns pagou-lhes os serviços; aos outros... nada lhes ficou a dever, em boa contabilidade. Quanto ao resto... este Boris-Hamlet entende, como o seu shakespeariano mestre, que o resto... não pode deixar de ser silêncio.

Uma única excepção, porém, feminina (sex appeal?).

Mostra-me a carta. Observo-lhe que talvez ela tenha razão, demais sendo mulher: chaque âme a son secret... E l'âme d'autrui est obscure – provérbio russo muito velho que encontrei, um dia, lendo African Spir.

Boris, picado au vif, exclama e protesta:

- Mais quel mystère!... Mais s' il n'y a aucun mystère!... Vraiment, c'est moi qui ne comprends pas..., ou comprends trop, malheureusement. A carta dizia isto: 

Meu amigo

Recebi duas cartas suas. À primeira não respondi, crente de que não seria recebida por V. essa resposta. Mas vejo agora que se eterniza a demora sob os tectos moiriscos de Olhão; então, apresso-me a dizer-lhe, após a leitura da sua carta, quanto me atormenta a situação dolorosa em que V. se encontra.

Pede-me V. um artigo na imprensa sobre o seu caso de imigrado, ou exilado, ou perseguido, ou todas as coisas juntas; eu vou-lhe falar com a maior sinceridade, com o coração nas mãos, como se diz em boa linguagem portuguesa. Não veja nas minhas palavras menos simpatia ou menos desejo de contribuir para suavizar a hora amarga que V. atravessa – mas a expressão da minha inquietação somada com a convicção da minha inutilidade.

O seu «caso» psicológico creio eu que o percebi, foquei-o nas suas facetas de Byron, nas aras de qualquer loucura generosa. Mas há, pressinto-o, desvões que eu não entendo nem vislumbro com suficiente exactidão, nos aspectos políticos que V. oculta. Eis a verdade, eis o que eu penso, eis por que não escrevo sobre V. – porque não compreendo a trama do conflito em que V. anda monteado. Se, aqui em Lisboa, V. não se tivesse metido atrás de uma cortina de fantasmas medievais, falando em Andorra como numa aventura em que se mesclavam nobiliários, camelots du roi, bispos e mais comparsas, se V., aqui em Lisboa, tivesse tido para mim a expansão da verdade, que é outra daquela que mostra e diz, poderia encontrar em mim um aliado ou um adversário, mas, enfim, mais do que a inquietação que me deixou. V. não faz decerto, à minha modesta inteligência, o desacato de a supor enrolada com a intriga que me contou. Eu não faço, à sua inteligência e à sua coragem, a ofensa de o supor «apenas», envolvido, por vida e haveres, numa história romântica própria para canções de gesta. Portanto, vê V. que o artigo amistoso e incessante que a minha simpatia lhe poderia dar o meu raciocínio mo veda – porque se não escreve sobre o que se não entende.

M... S... escreveu-me. Ele também não está elucidado sobre os prismas da sua acção política. O conselheiro A... C..., com quem falei, também vagueia na mesma obscuridade. Boris está para além dos olhos de nosso espírito, nas brumas de não sei que mistério.

Desejo sinceramente que a sua vida tome um rumo mais feliz, que se solucionem os seus problemas, que creia na simpatia muito afectuosa da

M... A...

Lendo a assinatura, suspeito de um conhecimento meu, antigo e breve: umas horas de palestra, há bons quinze anos, em casa de família, aqui muito perto de Olhão... Ouvira recitar anteriormente a sua delicada tradução de La pierre aqueuse de Remy Belleau em Os seixos da fonte, e atrevera-me a dar-lhe a conhecer (se não me falseia a memória) os melhores Poémes de Émile Verhaeren... Ligando referências, a suspeita confirma-se; e um retrato que Boris me mostra verifica-a em absoluto...

A carta está certa, mas não a acusação: é que, por sobre a nudez forte da Verdade do Rei, se despejou a cornucópia das espessas fantasmagorias de Sua Majestade a Imprensa; e como para a Quimera ainda se não inventou açaimo, o resultado é esse ultra-gongorismo canino que transpalhaçou em farsa a questão andorrana. Nem é preciso ouvir as rectificações de Boris: basta passar a vista por sobre o dossier que ele compilou, e estar animado da paciência e boa vontade de separar o joio do trigo. Que em Espanha o não houvesse (et pour cause...), compreendia-se ainda, até certo ponto; mas em Portugal, país do claro entendimento, e mero assistente longínquo ao conflito herói-cómico, não havia direito de ter confundido este rei com qualquer dos do baralho: - porque, visivelmente, não é nem um rei de espadas, nem um rei de paus, nem um rei de oiros, nem um rei de copas..., e no entanto: feudal, truculento, rico e bebedor!...

Outro dia à noite, sob a inspiração da cerveja com que Boris e ele se refrescavam diante de mim, abstémio, o meu querido colega Luiz Bernardino recordou, numa risada franca, que afinal o reino maravilhoso do roi Pausole ficava ali assim pr'ós lados de Andorra!... E Boris, com esplêndida bonomia e o mais hermético dos sorrisos, não deixou de conceder que: «Parfait!- mais à seule condition que les cerisiers donneraient des gingas!...»


Foto de Maria Archer, escritora e jornalista que suspeitamos ser M... A...

 

 

Conhece-se a descoberta de Wilde sobre a Natureza imitando a Arte, com as mulheres de pescoço esguio que vieram depois do prerafaelismo... Mas por que diabo é que à inventiva da Imprensa ibérica, de lá ou de cá, não teria acudido a tremenda descoberta seguinte: Boris, vindo muito novo a um mundo já muito velho, com a missão transcendente de «realizar» les aventures du roi Pausole!? – Francamente, teria sido bem mais inofensivo e interessante...

Boris é senhor de um mistério? Mas porque não tentaremos ao menos, defini-lo e pormenorizá-lo?

 


 

 

V - Do seu mistério em Portugal

 

"Quem me sabe dizer a razão porque eu amo?

"Há mistério até nas coisas mais banais!...

 

João Lúcio - Descendo

 

Abro o dossier de Boris, a mais de meio, e leio num recorte de jornal - «Um Rei de nove dias em Portalegre - Passou por Portalegre com a sua barba de aristocrata na disponibilidade, o Rei Boris I a quem a Espanha pôs na fronteira sem a mais ténue sombra de consideração. O Rei Boris com uma certa linha de cortesão, saiu da cadeia e entrou em Portugal com uma desluzida comitiva de contrabandistas!...» («A Voz  Portalegrense», 25 de Novembro de 1934).

Efectivamente, seriam cinco horas e um quarto, quando um último aperto de mão a Rolão Preto separava Boris da terra de Espanha. Passava-se a cena na tarde de 20 de Novembro findo, junto ao regato que no local serve de fronteira, a dois passos de Pino de Valência de Alcântara. Sítio ermo, via de contrabandistas, sopé da Serra de S. Mamede a atravessar... Boris vinha de alpargatas e é seu guia o contrabandista Vitoriano Escarcena Pires, guia que do Pino de Valência fora encarregado de o meter em Portugal, pelos escusos, sinuosos e perigosos caminhos da serra mediante a espórtula de doze pesetas, (ao contrabandista, bem entendido, e da algibeira de Boris, claro está...). Era forçosa a vinda por estes montes e vales sem vivalma, não fossem alguns vigias da raia reexpedi-los.

Por única bagagem, uma maleta de mão alternadamente transportada por um e pelo outro e um embrulho com os sapatos.

Boris vinha receoso, sempre, de alguma armadilha. Julgava que na serra o liquidariam alguns carabineros de encomenda... Para disfarce, mal passada a fronteira, enfiou à laia de pardessous o fato macaco de kaki amarelado, que trouxera no braço!...

Nenhum incidente, no entanto. Apesar do frio, Boris suava em bica, apressando-se, tropeçando, sob a cega-rega do homem, que lhe repetia ser preciso atravessar a serra antes do pôr-do-sol...

Três horas e meia durou a travessia: subida tortuosa da serra e a sua descida ao encontro da estrada que leva a Portalegre - 25 quilómetros, desportismo... complicado, um recorde autêntico, após os quatro meses de vida claustral…

Rolão Preto, amigo, recomendara a Boris que, chegando exausto e inapresentável, descansasse e se refizesse  na quinta do seu amigo Cursino Caldeira, no caminho, já próximo de Portalegre. A casa estava porém fechada e Boris, seguindo, entrou na cidade, noite cerrada, 8 horas precisamente que batiam.

Procura primeiro, em sua casa, o dr. António Ferro, advogado, indicado por Rolão Preto para tratar do seu caso. Não estava: nem no café, tampouco. Então, vendo passar um polícia, perguntou-lhe onde era o comissariado. O polícia acompanhou-o até lá e quase logo em seguida veio o comandante a quem ele contou todo o sucedido e pediu-lhe que lhe facilitasse a ida a Lisboa, receando ser empurrado para Espanha. O comandante, telefonou para Lisboa. Boris descansou no posto policial, bebendo ali, por sinal, umas cervejas, até que a resposta veio, cerca da meia- noite. O comandante diz-lhe então que a Polícia Internacional dera ordem de ele partir no dia seguinte para Lisboa: e mandou-o acompanhar pelo chefe do posto e outros guardas, à Pensão Portalegrense, onde pernoitou, depois de beber um grog, se lavar e se limpar.

Entretanto, o contrabandista desaparecera com a maleta, mal vira os polícias (Boris não trazia nela mais do que alguma roupa branca, papéis e jornais representativos...).

Boris, que dormira "como um morto", acordou tarde, dez horas… (e o homem da maleta?...).

Depois do pequeno almoço, um polícia chegou, para o acompanhar à esquadra. Foi então que Boris deu pelo grande inchaço que tinha nos pés, que quase o impedia de andar, e mandou por um rapazito da Pensão comprar umas outras alpargatas, sucedendo porém que todas que ele lhe levou à esquadra, não serviam, nem tampouco outras que alguns polícias foram em seguida buscar, até que por fim um outro polícia  desencantou umas alpargatas que «serviriam para calçar um elefante», segundo a própria expressão com que Boris mas pinta.

Na esquadra, onde esteve até ir almoçar - duas da tarde - escreveu cartas e enviou um telegrama para sua casa (Saint Cannat, sul da França) a pedir dinheiro, visto se encontrar apenas possuidor das 200 e tal pesetas que o haviam deixado trazer de Espanha.

Ao almoço teve a companhia de um polícia, que apesar da ordem de o acompanhar até à porta da Pensão, entendera dever levar o seu zêlo até o acompanhar à casa de jantar... ao que Boris correspondeu oferecendo-lhe amavelmente um bife e dois ovos, conforme consta da nota que me mostra e onde leio:

 

 

PENSÃO PORTALEGRENSE

DE

Jorge Maria Miranda

Rua do Comércio, 5-A--Portalegre

Exmo Sr.    Príncipe Boris                                                                  Deve

Mês

Dia

Almoço

Cama

Extraordinários

Total

Nov.

20

 

1

 

7$50

 

21

1

 

 

8$00

 

 

 

 

1 Bife e 2 ovos

3$00

 

 

 

 

Vinho e limões e

 

 

 

 

 

Açúcar e pº

 

 

 

 

 

almoço

3$50

 

 

 

 

Aguardente e açucar

1$50

 

 

 

 

 

23$50

 

Depois do almoço, acompanhado pelo seu comensal, voltou Boris à esquadra da polícia e por volta das quatro horas e meia foi procurar, acompanhado por um polícia, o dr. António Ferro ao seu escritório... Chega à porta, apresenta-se, o dr. deita a cabeça, convida-o a entrar e o polícia entra também. Pergunta ao polícia de que se trata: este diz-lhe qualquer coisa que Boris não entende... O polícia sai a convite do dr. mas a porta fica aberta... Boris então fala numa recomendação de Rolão Preto, o dr. sobressalta-se, pede o bilhete. Boris não o tem consigo, o dr. volta a pedi-lo rapidamente. Boris lembra-se então que o bilhete está na maleta... (que, por seu turno, a polícia de manhã acabara de encontrar guardada pelo fiel Vitoriano, apavorado na véspera, refugiado em casa da família, sem saber onde parava Boris). Indo buscar os papéis da maleta, voltou Boris ao dr. Ferro que com ele esteve redigindo rapidamente o comunicado histórico-político que levou para apresentar em Lisboa às autoridades e à Imprensa.

O polícia vem dizer que a camioneta vai partir para a estação... seriam umas oito e meia da noite.

Na estação, o polícia mostra-lhe dois bilhetes de 3.ª classe... Boris entende que há-de pagar o excesso para ele e para o polícia... e assim vêm chegar a Lisboa em 2ª classe, nessa mesma noite, à uma hora e meia da madrugada.

Toda esta realidade minuciosa foi a que o jornalista de «A Voz de Portalegre», condensou no resto da notícia com sua petulância provinciana: «Em Portalegre foi detido por indocumentado e, no dia seguinte, seguiu para Lisboa sem mais bagagem do que as suas polainas de Verão e o seu monóculo de rei conquistador. Pobre Boris!»

Partindo de alpargatas elefânticas, Boris, antes de chegar à estação do Rossio, trocou-as no entanto pelos seus elegantes sapatos e pôs de facto as polainas... e o monóculo tão decantado. À sua custa, toma um táxi, que o leva, com o polícia companheiro, à esquadra do Rossio, primeiramente, e em seguida, por indicação errada (pois nem na esquadra, nem o chauffer sabiam a morada exacta) à antiga sede da Polícia Internacional... Lá, mandado embora o táxi, sabem que já não era ali a referida Polícia... E por um polícia da rua, conhecendo então a actual sede, lá se dirigem a pé à rua António Maria Cardoso. Chegados ali, já os esperavam alguns agentes de serviço; e então, despedido o polícia, um agente o levou ao Governo Civil, onde lhe tomaram a filiação simplesmente (nascido em Vilna a 12 de Janeiro de 1896, filho de Michel e de Elisabeth) e, como profissão, ao que já estava escrito - Boris, Príncipe de Andorra, Conde de Orange, barão de Skossyreff - adicionaram, de acordo com Boris e por declaração deste: proprietário.

 Perguntado se desejava quarto particular declarou decididamente que sim, pagou logo 10$00, e veio a ficar num quarto muito asseado, com boa cama e livre comunicação com o corredor, num dos extremos do qual ficava a sala de banho e no outro a sala de visitas, com um guarda permanente (Boris ficou surpreendido agradavelmente com esta urbanidade, que não cessa de elogiar, em relação ao que encontrara em Madrid...).

Dorme como um justo, que julgo ser, e na manhã seguinte, no lavabo, encontra um indivíduo que se lhe dirigiu em espanhol e depois em inglês, apresentando-se-lhe como Alexandre Romanoff. Como Boris conhecia pessoalmente muito bem o grão-duque Alexandre da Rússia, ficou interdito e perguntou-lhe se seria parente do grão-duque... O homem respondeu que não, pois há muitos Alexandres Romanoff na Rússia e contou a sua triste história, que metia Al Capone e outros gangsters, de mistura com outras infantilidades e desvairos que deram a Boris a impressão de um caso patológico, talvez produto da Grande Guerra e revoluções subsequentes.

No entanto um ourives da rua do Ouro que o ajudava, parecia acreditar piamente no seu delírio: uma fortuna que estava num cofre, do qual Al Capone tinha uma chave e ele a outra, sendo preciso escrever a amigos da América com uma cifra convencional para AL Capone que estava na cadeia...

A espanhola "La Voz", alguns dias depois noticiava este encontro sob a epígrafe de "Gente fantástica - telegrama de Lisboa, 27... - vejo-o pelo recorte do dossier - onde Boris é dado como estado "en la prisione"...

Na mesma manhã de 22, já o "Diário de Notícias" botava em meia coluna o retrato de Boris com o trajo nacional andorrano e várias pequenas mentiradas a rechearem a notícia da sua chegada na noite... «Já anteriormente fora expulso da Inglaterra e da França»... «fez intensa propaganda, distribuindo entre os habitantes da minúscula República postais com a sua efígie», etc. entre elas avultando a história de miss Mazmon milionária norte americana. Tudo isto mais ou menos decalcado das gazetas espanholas...

Nessa mesma manhã, porém (conforme logo na tarde a «República»  e o «Diário de Lisboa» e na manhã seguinte o «Diário de Notícias» e «O Século» deram a público), Boris recebeu, pelas onze horas os jornalistas que o foram entrevistar, começando por lhes dar a ler a memória histórico - política que o dr. Ferro, de Portalegre, redigira, na véspera, e trocando com eles algumas impressões. Estavam pois os jornalistas informados por documento escrito, que o«Notícias» inseriu na integra, e a «República» reproduziu fielmente, em linguagem mais amável, mas que «O Século» resumiu imperfeitamente e o jornalista do «Lisboa», Rogério Perez, achou «intrincado», e aproveitou para dar largas à sua imaginativa tauromáquica, apresentando, com retrato de monóculo o «falso Rei Boris como um iluminado ou um mistificador?».

E como na fábula, não faltou «Ultimus», no curial «Diário da Manhã» de 23, a pôr em foco a «notícia sensacional do dia» divagando burlescamente e acabando por descobrir o cognome de «Imperador do Ridículo», porque a tolice é... universal!

Depois dos jornalistas, foi Boris com um agente à Polícia Internacional por motivo da ficha de identidade, «avec jeu complet de piano», acrescenta de bom humor. O resto do dia, no Governo Civil passou-o tranquilamente lendo os jornais (a fotografia do Notícias o mostrou), escrevendo cartas e palestrando com os outros detidos - mais dois além do Romanoff. A comida vinha-lhe de um restaurante privilegiado: mas, directamente, pôde saborear, também, deliciosas maçãs vendidas ali pelas mulheres detidas por multa com os seus cabazes... E em toda a tarde houve ainda romaria de polícias e curiosos, que metiam a cabeça às grades da sala de visitas, enquanto o «rei» escrevia.

No dia seguinte, 23, sexta feira, pela tarde recebeu a visita de Ferreira de Castro e Roberto Nobre, nenhum dos quais conhecia - como de resto, ninguém em Lisboa... Ferreira de Castro viera espontaneamente, por ter estado em Andorra alguns anos antes - o primeiro português que lá esteve e sobre Andorra fez reportagem (uma série de artigos em «O Século») - e por  ter acompanhado a questão andorrana. Roberto Nobre, por curiosidade e simpatia, acompanhava-o. Uma longa conversação se travou tendo ambos oferecido o seu préstimo a Boris para resolver a sua situação.

24, 25 e 26 passaram-se sem novas visitas, salvo um ou outro jornalista estrangeiro ou português, que vinha sobretudo informar-se das disposições de Boris, uma vez em liberdade. Boris decididamente, respondia a todos que depois de passar algum tempo no Estoril, tencionava ir para Andorra (foi a notícia que «La Voz» deu em telegrama de 27: «Saldrá de Portugal y parece que fijará su residencia en Andorra»).

Em 26, pelas 4 ou 5 horas da tarde, vieram dizer-lhe que o chamavam da Polícia Internacional e que era para o porem em liberdade. Foi lá, deixando porém, a maleta já preparada no Governo Civil.

Na Polícia Internacional esperou hora e meia antes de ser admitido à presença do Secretário Geral, que o notificou da sua liberdade condicional ou provisória, devendo apresentar-se ali duas vezes por semana, enquanto trataria de obter o passaporte apreendido em Espanha ou outros documentos de identidade. Nesta ocasião Boris perguntou-lhe como poderia receber dinheiro ou cartas que lhe fossem dirigidas em registo, mostrando-lhe o telegrama que na manhã lhe fora entregue no Governo Civil, telegrama de resposta ao que mandara de Portalegre para Saint Cannat, e que, recebido em Portalegre em 25, (conforme vejo pelo carimbo do correio) fora mandado para Lisboa com a seguinte tinta: «o destinatário encontra-se no Governo Civil, em Lisboa» (telegrama que Boris me mostra e em cujo endereço, leio: «prince boris andorre portalegre--Lisbonne portgl» e cujo conteúdo diz: «portlgre saintcannat-fonds telegraphiques lundi»). Respondeu-lhe o Secretário que de cada vez que ele precisasse abonar para tais fins a sua identidade não tinha mais do que dirigir-se lá, que ele mandaria um agente para o acompanhar.


Fotografias inseridas em artigos no Diário de Notícias de dias 22 e 23 de Novembro de 1934

 

Era ao crepúsculo já. Boris em liberdade instalou-se imediatamente no Hotel Francfort, da Rua Santa Justa, e mandou pelo "groom" buscar a maleta ao Governo Civil. Quando desceu para jantar, telefonou para Ferreira de Castro, convidando-o a vir ali tomar café. Veio, e depois foram à pastelaria Veneza onde Roberto Nobre os esperava para irem ao cinema. Num entretanto, foi-lhe apresentado o dr. Rui Santos e indicado como advogado, o que Boris aceitou.

Marcada entrevista para as 15 horas do dia seguinte, no escritório do dr. Rui Santos, foi, e ali encontrou também o seu sócio, dr. Manuel Anselmo, que se prestou com interesse a tomar conta do caso.

Boris procurava activamente obter o passaporte apreendido em Espanha: o dr. Anselmo, pelos seus afazeres oficiais e literários descurava um pouco a questão... Alguns dias se perderam assim...

Neste entretanto, Boris obtinha na data de 28 de Novembro o bilhete de identidade n.º 893, da Administração dos Correios de Portugal, fornecido pela 1ª Secção Postal da Estação de Lisboa Central: e neste bilhete (que tenho diante de mim) leio, quanto ao «titular» o seguinte: «apelidos - Príncipe de Andorra - Conde de Orange; nome próprio – Boris; profissão – proprietário; domicílio: Hotel Francfort». A fotografia é a do mesmo Boris; e os sinais característicos, a data natalícia e a naturalidade são os mesmos que Boris já declarara na Polícia e Governo Civil, a altura 1,80m, os cabelos pretos e os olhos verdes. Decerto que Boris pudera provar a sua identidade de forma irrefutável - condição sine qua non para lhe ter sido passado este bilhete!... E desde então, observa ele sorrindo, tornara-se «des meilleur clients de la post!», tanto no dar como no receber... Os vales telegráficos vinham em sobrescritos, que me mostra com este endereço constante: «Prince d'Andorre – Hotfort». Surpreendido com este último nome pergunto-lhe, num momento, de que se trata. E responde-me, ajustando o monóculo, com o vigoroso bom humor: «Vous   voyez que ce n'est pas le fromage! C'est tout bonnement quelque chose de ‘fort’ l"Hotel Franc...’fort’». E rimos, a bom rir.


Hotel Francfort, no Rossio, em Lisboa

Boris tornara-se tão conhecido que, mesmo sem...«Hotfort», lá lhe foi parar, logo em 1 de Dezembro, um telegrama de 30 de Novembro, vindo do «Buckingham Palace London» dirigido ao «Duke of Andora Lisbon» e dizendo o seguinte: «The Duke and Duchess of Kent thank you for your kind telegram».

Primeiros dias de Dezembro. E o dr. Anselmo ainda nada pudera fazer. Boris, por seu lado resolvera enviar ao «Tribunal de Garantias Constitucionais» em Madrid uma exposição dos factos com ele ocorridos em Espanha, pedindo as medidas que o caso reclamava. Ao mesmo tempo, enviara a um amigo uma cópia, a fim de ele chamar a atenção dos advogados D. Luís Barreno e D. Francisco Pastor Carbonell, a quem escrevera já, de Portalegre e do Governo Civil de Lisboa. A este último facto se referira a «República» de 22 de Novembro. Boris pedira ao jornalista: «- É que eu precisava de mandar esta carta para o meu advogado em Madrid... - e foi o João, funcionário modesto, quem a foi deitar ao correio, sob registo".

Interessantíssima, sob todos os aspectos a resposta que esse amigo fiel lhe envia com a data de 11 de Dezembro. Limito-me a traduzi-la do castelhano popular em que está redigida.

 

Exm.º  Sr, e meu estimado amigo

Agradeço-lhe a sua amável e sincera carta de 8, desejando que o seu estado de saúde seja completo.

Fui estar com o sr. Pastor ontem à noite, e, como o conheço bem, falei-lhe do documento, sem lhe dizer que tinha a cópia em meu poder; e resultou o que eu imaginava: a começar por pôr toda espécie de inconvenientes ao assunto, dizendo que no Tribunal de Garantias não lhe dariam curso e morreria no esquecimento… Foram estes os motivos porque não lhe disse que o dito documento estava em meu poder. V. Ex,ª pode compreender que situação para mim tão violenta se ele me diz: «deixe-me vê-lo para estudá-lo»- na grande certeza de que nada faria e que mui bem poderia ter ficado com ele, para fins nada cavalheirescos, pois V. Ex.ª não ignora que ele tem muito boas relações  com o governo actual.

Disse-me que havia escrito ao procurador da Seu d'Urgell para lhe mandarem a bagagem. Perguntei-lhe, muito indisposto por que razões não lhe tinha mandado os documentos, e ele mostrou-mos com uma carta que tinha escrita para a enviar a V. Ex.ª nesta mesma data. Também me comunicou que sabia que o passaporte o tinham reclamado da Direcção da Seguridad para o enviarem por intermédio do Cônsul.

Aqui faz um frio horroroso. De política, continua o sr. Gil Robles dominando tudo e está para durar. Prorrogaram o estado de guerra por outro mês.

Analisando a injustiça que têm estado a fazer com os direitos sobre a personalidade de V. Ex.ª é-se levado a pensar que são tudo combinações do bispo de Urgel com o sr. Gil Robles e todos os seus esbirros.

Todas as vezes que tenho tido ocasião de conversar com o sr. Pastor no caso de V. Ex..ª, para ver se conseguia arrancar-lhe o segredo da injustiça cometida consigo, sempre se tem desculpado, respondendo que é segredo político que ele nunca chegou a compreender - coisa que não tenho podido acreditar, porque todos os meses tem reunião com os srs. Lerroux e Salazar Alonso.

Nesta mesma data escrevo a sua esposa.

O importante é que a saúde de V.Ex.ª seja perfeita.

Cordiais lembranças de minha mulher.

Cumprimenta-o o seu afectuosíssimo amigo e servidor , etc.

B... M…

 

Em face desta carta, mais urgente se tornava escrever ao Cônsul Geral de Espanha em Lisboa, porque talvez ele estivesse já de posse do passaporte. Mas não tendo conseguido encontrar nem o dr. Anselmo nem o dr. Santos, por conselho do dr. Correia Ribeiro, seu médico e amigo, e de seu irmão, o dr. Diogo Ribeiro, decidiu-se a escrever ao dr. Anselmo pedindo-lhe licença para entregar o caso a outro advogado, pois que manifestamente as suas ocupações lhe não deixavam tempo para tratar devidamente os interesses dele. Então o dr. Anselmo viera procurá-lo, protestara a sua melhor atitude e escrevera a carta.

Ao mesmo tempo recebera Boris uma outra carta, do seu advogado madrileno, D. Luís Barroso, comunicando-lhe que o passaporte seria enviado para Lisboa, requisitado pela Direcção da «Seguridad» pois fora ao tribunal que o julgara (esta carta mostrara Boris à redacção do «Diário de Notícias», conforme vejo por um recorte do mesmo jornal, de 12 de Dezembro, e entregou-a, segundo me diz, à Polícia Internacional).

Da carta escrita pelo dr. Anselmo, apenas houve uma resposta acusando a recepção e a remessa para Madrid...

Em 17 de Dezembro noticiava «A Voz», a visita do «Sr. Conde de Orange, pretendente ao trono de Andorra», que na noite anterior, ali estivera, apresentado pelo dr. Manuel Anselmo.

A várias outras pessoas o dr. Manuel Anselmo o apresentou igualmente, e no Café Chiado, que frequentava, o círculo das suas relações se foi estendendo.

Uma tarde o dr. Anselmo levou-lhe ao hotel o jovem Aleixo Ribeiro que lhe pediu uma entrevista para o «X»; e Boris concedeu-lhe logo, na presença do mesmo dr. que a completou com as necessárias informações...Mas saindo depois, Boris e o dr. Anselmo, a procurarem no Café Veneza, Ferreira de Castro, a que Boris desejava perguntar as datas da publicação dos seus artigos sobre Andorra, em «O Século» e pedir algumas fotografias dos Vales, para facilitar um trabalho histórico – fotográfico do dr. Falcão Machado, não encontraram o ilustre autor da «Selva», mas Reinaldo Ferreira, surgido não se sabe até hoje se porque encanto, declarando nada ter com Aleixo, tomou à sua conta a reportagem, e, no dia seguinte, enviou um repórter qualquer, que, para cúmulo, assinou «Alex» o acervo de tolices vindo à luz no dito «X» de 27 de Dezembro.

De Madrid, nem passaporte, nem documentos, nem bagagens, nem dinheiro...Um absoluto segredo de Poli...chinelo (como diz Boris), que o 1934 levou consigo...

 


 

 

VI - Da continuação e fim do seu mistério em Portugal

 

1934, indo-se, e 1935, entrando, são todavia portadores de uma elegante mensagem de boas festas aos amigos de Boris nos quatro cantos do globo. O exemplar que me é oferecido agora, como documento, no seu aristocrático envelope, azul baço e pálido, moderno, é uma pequena folha, dobrada de papel da mesma cor, encapada de papel vegetal marmóreo, em cujo frontispício se destaca “Greetings” em relevo a ouro, e avulta um laço de fita de seda azulada, prendendo a ponta do canto inferior azul, revirado...Dentro, na meia folha fronteira, a negro e em letra gótica miúda:

1934-1935

 

Remembrance for the Past

Good Wishes for the Present.

Bright Hopes for the Future,

From

The Sovereign Prince of Andorra.

Hotel Frankfort,

Lisbon

 

Como se vê, «o soberano príncipe de Andorra» não desiste de se considerar autêntico – apenas exilado por uma dupla intervenção estrangeira, que não reconhece. Errado é pois considerá-lo simples «pretendente»...

Príncipe exilado... longe, de resto, do seu lar, das suas afeições mais queridas, Boris – poderíamos aqui dizer com sinceridade o «pobre Boris» – sofre da sua solidão neste trânsito do ano... As recordações pensara ele ir dissipá-las numa estúrdia qualquer, com amigos, no Estoril... Um feminil amigo porém o convidou a uma pequena festa de família.

Boris esperou, esperou, esperou... e teria desesperado, sentindo depois mais acerbamento o seu isolamento, se doutro lado, alguém compreendendo, lhe não tivesse acudido com um convite gentil – recordação gratíssima, que lhe ficou gravada na alma e não mais se apagará. Por esta forma, Boris veio a ter a ocasião de passar o «reveillon» sem sair do hotel, na intimidade da própria família da proprietária, graças sobretudo à amabilidade de D. Lucília Leoni de Carvalho. Festa animada por Champanhe de boa colheita e Porto «dun âge respectable», festa no último andar do edifício, donde Boris viu «la seul fois les portugais être gais» na folia dos cincos minutos gratuitos, plenos de algazarra e de movimento, no Rossio todo, com estagnação formidável por todas as artérias confluentes – espectáculo único no mundo, assevera-me ele.

Janeiro vai decorrendo... Em 17 noticiam os jornais – tenho presente o recorte do «Diário de Notícias» – que Boris pedira ao Governo português autorização para trazer para Portugal uma avioneta (não de seis lugares, mas de dois apenas, rectifica...) que se encontrava no aeródromo madrileno de Cuatro Vientos. Um seu amigo, Catarino de nome, se encarregaria do necessário. A resposta que lhe dão, no Conselho do Ar, é a seguinte: que o pedido deveria ser formulado por via diplomática ou consular do seu país... E, claro, como Boris anda justamente em demanda... do seu país, «cette demande-là est allée rejoindre les anges...» e a avioneta continuou (e continua) no seu madrileno abrigo.

Janeiro quasi inteiro decorrido... Quanto ao passaporte – de Espanha... nem pio! O dr. Anselmo fatiga-se... Então o dr. Rui Santos, encontrado por acaso, enche-se de coragem e tenta segunda investida (o dr. Velez de Lima é agora o seu companheiro e mentor).

Uma resposta, de 28, do consulado espanhol, em Lisboa limita-se a ser idêntica à primeira: acusam a recepção e informam que transmitiram...

Em 9 de Fevereiro está Boris repousando num «maple» do «aquário» de Santa Justa, quando uma certa carta registada sobrevém... Sentindo um rebate de que seria porventura o desejado passaporte, nem reparava que vem da «Fotografia Calvet» que é no «edifício del teatro de la Comédia (principe, 14-Madrid)». Apenas se certifica que o destinatário é o «Señor Boris Primero, Conde de Arania, Báron de Skossyreff – rua de Santa Justa». Abre o sobrescrito e retira o conteúdo: uma carta à máquina e duas fotografias – da mesma entidade... Formidável! Boris lê a carta: «Apreciable primo Boris Primero de Andorra. No pude imaginar lo que he sufrido hasta su contestation al na saber su paradero...». Boris salta a ver a assinatura: Dolores Roldan y Ruiz. Recorda-se então de uma carta a que respondera (como costuma sempre), alguns dias depois de estar já no hotel, resposta banal, agradecendo felicitações... Mas que diabo seria aquilo agora?... «Pues estaba dispueta si tarda dos dias más en escribirme a dar cuenta a la Sociedade de Naciones por el mal servicio de los certificados o al coronel Aparicio... ...y ya me alegro que esté ya en libertad y en un buen hotel pues es una lastima que las 20.000 antes de salir de aqui no las hubicas e partido conmigo, pues todavia no tengo la mano para poder trabajar y paso muchas calamidades»(!!!).

«Le mando dos fotografias que ya le decia en el otro escrito, la primera para que mande hacer una estatua de piedra, de mármol o de bronce para colocar en la finca de los jasmines y madre selva cuando esté uted en su pais... y la grande para que en sus horas tristes e de alegria considere las penas que yo estoy pasando desde que sali de Andorra».

 


Artigo saído na imprensa espanhola sobre o assunto

Formidável! A fotografia da estátua representa em meio-bilhete postal uma «maja»... burgeosa, segurando na mão direita um «abanico» fechado, e apontando para a esquerda... provavelmente o sítio simbólico da estátua futura, porque se está numa “finca” com fundo de árvores e flores – «finca de los jasmines y madre selva?...» «Non» observa Boris ajustando o monóculo, «parce que c’est plutôt le deces de Madame Butterfly!...» A outra fotografia, para que se não suponha fantasia pura, reproduz-se aqui, com a sua dedicatória veneranda: «A mi primo Boris I de Andorra – Dedico esta fotografia. M.a de los Dolores Roldan Y Ruiz, primer par de España, princesa de Andorra, Aragóne y Castilla».

Loucura! Julgar-se-á, à primeira vista. Mas Boris conta-me que se recorda de uma mulher que viera para falar-lhe às grades do «Carcel Modelo», mas, pela afluência, o não conseguira, e da qual os companheiros políticos espanhóis detidos da revolução de Outubro lhe contaram uma história complicada que ele então se recordou ter ouvido já ao próprio Afonso XIII, em San Sebastian, queixando-se-lhe de que não podia sair do palácio sem ser abordado por aquela dama, que, com grande gáudio do Marquês de Viana e do Duque de Miranda, lhe impingia a mudança do seu nome de «Roldan» em «Roland» como deveria ser se os bispos e os monges o não tivessem trocado, de propósito, para lhe roubar a sucessão do companheiro de Carlos Magno, o herói de Roncesvales...Em compensação, ela insistia por que o rei aceitasse um palácio e uns palacetes que possuía na Avenida da Liberdade, em Lisboa...Por isso, se intitulava primeiro «par» de Espanha e «princes de Andorra», etc. talvez mais astúcia de herdeira... reformada que loucura verdadeira. Em Madrid conhecê-la-iam à maravilha. Na carta a Boris diz ela ainda, entre outras coisas: «Descria que se tomase la molestia de hablar con el coronel Aparicio en mi nombre y le enseñe isa dos fotografias mias y el escrito y le hable sobre los palacetes a ver lo que dice si todavia puedo reclamarlos y donde los he de reclamar.»

(Com vista ao coronel Aparicio...)

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Fotografia retirada do artigo publicado no “O Diabo”

Em meado justo de Fevereiro recebe porém o dr. Santos, do Consulado Geral de Espanha em Lisboa, uma carta, pela qual se fica sabendo que o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Espanha informava de que o passaporte a que faz referência o Sr. Boris Skossyreff foi enviado pelo referido Ministério à Legação dos Países-Baixos em Madrid, em 3 de Dezembro do ano passado, por ter sido assim pedido pela mencionada representação diplomática.

Enfim!

Boris – como na mesma carta se acrescentasse: «Com respeito às 10.000 pesetas que o seu referido constituinte diz que lhe foram apreendidas, não consta do referido processo que lhe tivesse sido retirada essa nem qualquer outra importância» – decidiu-se a publicar (datada de 16 de Fevereiro), uma «Carta aberta à Polícia Internacional», em que agradece a consideração que lhe fora dispensada e expõe sumariamente a história do seu feito andorrano, da sua prisão em Espanha e da sua expulsão «manu militari» (João Rico – que também é de Olhão – o ajudou na redacção deste «desabafo de alma»)...

Ao mesmo tempo, em 17, Boris, ia ao consulado dos Países-Baixos em Lisboa, para se informar: ali aconselharam-no a escrever directamente ao ministro dos Países-Baixos em Madrid, embora, eles, por sua parte fizessem todo o possível.

Boris alargava entretanto o círculo das suas simpatias. «Fradique», perspicaz e humano, noticiava, em 21, a visita da sua «figura estranha mas simpática, que tanto destoa no utilitarismo terra-a-terra do nosso tempo...», e observava, justamente, que «se na aventura houvesse muito de opereta, a maldade dos homens se empenhou em transformar essa opereta de um belo sonho numa tragédia de injustiça e crueldades».

À carta de Boris para Madrid respondia agora, com data de 20, directamente, o ministro holandês, comunicando-lhe que o «passaporte tinha, por engano, sido enviado para a dita legação, mas já lá não se encontrava».

Assim «perante estes factos e porque a sua situação como está agora é inteiramente insustentável», Boris, tendo ouvido alguém bem categorizado (o dr. Eduardo Machado, secretário do ministro dos estrangeiros, de então, o dr. Caeiro da Mata) resolve entregar no Ministério do Interior um requerimento em que, depois de historiar sumariamente a sua entrada de «indocumentado pela força das circunstâncias», as suas «démarches» infrutíferas para a obtenção do passaporte e a sua situação actual nos termos aqui transcritos, acabava por requerer:

 

«1º – Que lhe seja concedido um «certificado de identidade», ou seja um passaporte de «Nansen», a que tem direito na qualidade de apátrida.

2º – Que este pedido seja dirigido a sua Ex.a o Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, acompanhado por todos os documentos justificativos da sua identidade, documentos que, como já disse, estão em poder da Polícia Internacional Portuguesa» (é o que leio num recorte do «Diário de Lisboa», de 27-11-35, que reproduziu quasi todo o texto do requerimento).

 

Boris acrescenta, para meu esclarecimento, que com parecer favorável do ministro do Interior, o Ministro dos Negócios Estrangeiros teria transmitido à Sociedade das Nações, por intermédio do delegado português, o pedido do passaporte «Nansen»: e ela o teria concedido.

Esta situação de «sem pátria» em que Boris se encontrava, quanto a nós, julgou ele, no entanto, que o não impedia de se considerar sempre e de ser considerado soberano de Andorra; e nesse sentido, e para esclarecer a opinião da imprensa estrangeira, o seu advogado, dr. Rui Santos, dirigiu em 1 de Março um comunicado em francês às agências jornalísticas, sublinhando que «Son Altesse Sérenissime le Prince d’Andorre» não abandona «ses droits sur le Vallées d'Andorre, ni l'exercise des hautes fonctions que le Peuple Andorran lui a conferées en sa qualité de prince co-souverain du dit État», e que a situação de estrangeiro em Portugal o obriga, fazendo face «à la mauvaise foi de politiciens dés pays, qui ont le intérêt évident d'empêcher son retour en Andorre» a solicitar a obtenção de um passaporte «qui ne saurait le priver de la nationalité andorrane, dont il est fier» (assim transcrevo da cópia à máquina que Boris me mostra).

No entretanto, como da Legação neerlandesa de Madrid, o passaporte de Boris (súbdito holandês à data da sua proclamação andorrana) fora certamente enviado para Haia, escreveu o advogado de Boris (agora o Velez de Lima), antes dos meados de Março, ao Ministro dos Estrangeiros na Haia, a fim de obter, pelo menos, uma certidão de idade ou extracto do passaporte apreendido. Boris, por seu lado, pedira à Legação dos Países-Baixos em Lisboa o seu interesse pelo assunto.

Do seu requerimento ao Ministro do Interior nenhuma notícia até ao fim de Março: Boris, quanto muito, soubera que o Ministro do Interior pedira as informações necessárias à Polícia Internacional mas... que o caso ficara por ali.

No 1.º de Abril – «vrai poisson d'Avril», graceja Boris – finalmente e simultaneamente, foi recebida pela Polícia Internacional e pelo dr. Velez de Lima, a comunicação do Ministro dos Estrangeiros da Holanda, feita por intermédio do consulado deste país em Lisboa, acerca da identidade de Boris, «barão de Skossyreffe, por alta concessão de S. M. a rainha Guilhermina» (o «Diário de Notícias» de 14 e a «República» de 15 de Abril o noticiaram). Porém quando Boris, acompanhado pelo seu advogado, se apresentou, a ver se agora, com mais fundamento, lhe seria passado o passaporte «Nansen», foi-lhes dito (conforme se lê nos dois jornais citados), que Portugal não fazia parte dos países que aderiram à convenção que criou esse documento destinado aos «sem pátria». Aconselhou-se-lhes então um requerimento de passaporte nacional a título de estrangeiro, requerimento que no dia seguinte Boris assinou, com os seus dois advogados. Alguns dias depois era o dr. Lima de Velez avisado, por telefone, de que Boris devia fazer novo requerimento especificando o fim da viagem; e então, Boris especificou o seu verdadeiro destino: «Andorra, por via marítima e por França», no novo requerimento («numéro trois», a junta insistindo), que todos os três assinaram.

Boris desejava (conforme o que se disse na «República» de 15) «um passaporte português para o estrangeiro que lhe permitisse, por via francesa, atingir Andorra, onde, na sua qualidade de andorrano, lhe seria fácil munir-se de passaporte».

Uma semana passou, esperando ver-se dentro em pouco em Andorra, onde se identificaria imediatamente.

Mas... «boas contas deita o preto»...particularmente, começa por saber que o requerimento está deferido... porém o passaporte não o levará a Andorra: unicamente até Paris, onde deveria reencetar diligências para o passaporte «Nansen»... Em 8 sabe mais e pior: que o passaporte só valerá para a ida...Então, querendo assegurar, para qualquer eventualidade, a possibilidade de voltar a Portugal, resolve, em 9 de Abril, seguir outro caminho: escreve uma carta e vai ele próprio entregá-la a uma altíssima personalidade cuja influência julga decisiva. Explicando o que se passava, solicita residência permanente em Portugal, e termina com estas palavras: «como a insuficiência de tal meio (o passaporte válido para uma só viagem) me poderá induzir nos mesmos riscos que corri quando da minha entrada em Portugal, desejaria ainda solicitar a bondade da alta intervenção de S. Ex.ª, a fim de me ser assegurado o regresso a este país e assim a continuidade do bom acolhimento de que, penhoradamente, espero continuar a ser-lhe devedor».

No dia seguinte, 10, recebia o dr. Velez de Lima na qualidade de procurador de Boris, barão de Skossyref, um ofício da Polícia Internacional, comunicando-lhe «que por S. Ex.ª o Ministro do Interior foi deferido o requerimento em que ele pedia lhe fosse concedido um passaporte válido para uma só viagem até Paris, onde Boris tem facilidade em obter um passaporte «Nansen». E o dito ofício terminava com a declaração de que a referida Polícia não via inconveniente em que Boris continuasse residindo em Portugal, «pois está averiguado que o motivo da sua expulsão de Espanha foi meramente de política interna, que em nada afecta a política nacional ou internacional» (conforme os termos reproduzidos pelo «Diário de Notícias» de 14).

Certamente que um equívoco se estabelecera, julgando-se mais fácil para Boris o que precisamente mais dificuldades lhe acarretaria talvez...E toda a situação presente deriva daí.

Boris estava desapontado, vítima deste equívoco; e esperou sempre que mercê da alta influência invocada, ele se desfizesse... Em 19, indo porém saber o que haveria, recebe como resposta, verbalmente, por intermediário categorizado «...l'invitation à la valse»! Boris não há maneira de me traduzir isto...!

Agradeceu, mas retirou-se. Era, em sua consciência, uma solução respeitável e mesmo lisonjeira, mas que, por lealdade do seu carácter à fidelidade aos seus princípios, lhe era absolutamente impossível aceitar. «Ma fin ne justifie pas ce moyen-là», além de que, naturalizado português, teria implicitamente renunciado à sua qualidade de andorrano (um aventureiro vulgar, não teria, por certo, escrúpulos desta ordem...).

«A bout de ressources»... resigna-se a aceitar, em 20, o passaporte que lhe concedem. Dois dias depois, pelos avisos afixados nos hotéis, lembra-se de ir ao Arquivo de Identificação pedir um bilhete de identidade, visto que residia há cinco meses em Portugal e fora assegurado da possibilidade de continuar residindo sem inconveniente. Ali porém, em vista do passaporte ser de «estrangeiro sem nacionalidade», dizem-lhe que é preciso fazer um requerimento ao chefe hierárquico. No Ministério da Justiça, acrescentam-lhe que devia juntar ao requerimento uma pública – forma do passaporte. Em 24 tudo está pronto: o ministro defere o requerimento. Indo agora ao Arquivo, este «contrariamente a esta ordem ministerial, recusou-se a passar-nos o referido bilhete, dizendo-se apoiado numa prévia determinação superior e confidencial, com data de 22 do mesmo mês» (dou a palavra a Boris em «A Voz» de 4 de Maio).

Boris, então, com a paciência esgotada, fica furioso... Corre ao Ministério da Justiça, a ver que jogo de «cache-cache» era este, e, pelo caminho, encontrando Mário Saa, arrasta-o, como testemunha... Conta o caso ao Ministro, que se mostra também desapontado, e telefona para saber... Penetra-se finalmente o grande arcano...: o bilhete de identidade na mão de Boris fora reputado coisa perigosíssima pois poderia assim atravessar a fronteira espanhola! Boris compreendendo, agora («felix qui potuit rerum cognoscere, causas»! - ajunta ele em pitoresco latim), sai a encontrar-se com Mário Saa, que está no gabinete do dr. Ulisses Cortês, conta-lhes o sucedido. Indignam-se ambos e procuram uma solução «de chlorate de potasse...». De vários lados se tenta atingir o «primum mavens»: só se consegue apurar das melhores fontes que nada consta contra Boris.

Os dias têm corrido, Abril é findo, e («point d'orgue») no 1º do florido Maio, Boris, convidado a prestar declarações, espera duas horas, e às cinco da tarde é intimado a sair do país dentro do prazo de 15 dias!...

Tudo o que acabo de relatar – à parte as rectificações e esclarecimentos que Boris me fornece, apoiando-se em documentos inéditos – se encontra disperso pelos jornais coleccionados no seu «dossier», em especial o «Diário de Lisboa» de 3, o «Diário de Notícias» de 14 e sobretudo a «República» de 15 de Abril; ao que devo juntar as notícias posteriores à intimação – na «República» de 3, no «Diário de Lisboa» de 9, no «Diário de Notícias» de 10 de Maio, especializando o requerimento inserto na íntegra em «A Voz» de 4, sintético e eloquente aditamento à carta referida de 9 de Abril, bem como o comentário judicioso que se lhe apôs.

A propósito deste último requerimento – «o requerimento de portador ‘introuvable’» – conta-me Boris que por fim, esquivando-se todos os seus amigos e conhecidos a levá-lo ao destinatário, e passados três dias já na sua publicação em «A Voz», não teve outro recurso senão enviá-lo registado e com aviso de recepção...Veio o recibo, assinado por «João Baptista»... (Mário Saa o tem arquivado). Mas Boris ignora até hoje quem terá sido este homónimo do Santo Precursor e se este documento terá chegado às mãos do verdadeiro Senhor Destinatário...

Em face do enxotamento de que era objecto, Boris prometera agora a si próprio, à sua dignidade de homem de consciência e de conduta limpa («en plus des souliers»...) não mais pôr os pés em repartição pública alguma de Lisboa, passando de resto os seus dias entre a agência Cook e os seus consulados, e as suas noites no Estoril...

Não tendo tido possibilidades de sair de Lisboa para Itália ou Marrocos, e tendo chegado o fatal dia 16, resolveu, com Mário Rodrigues, como já disse, procurar seguir pelo Algarve. Saindo do Consulado britânico às 11 e um quarto, três amigos o esperavam num café do Cais do Sodré – Mário Domingues, Sacadura Bretts (pintor, primo do glorioso Sacadura Cabral) e Carlos Silva (director da defunta «A Reacção»). A eles veio juntar-se então o visconde Leon de Poncins, que Augusto Ferreira Gomes acompanhava. Aproveitando a ocasião, De Poncins tirou várias fotografias de Boris entre elas uma curiosa, por inventiva de Ferreira Gomes, tendo por fundo o relógio de precisão, que marcava no momento as 11 e meia...Num táxi, com Bretts, De Poncins quis acompanhar Boris até ao hotel, onde se despediu.

Ao meio-dia menos dois minutos, partiram Bretts e Boris para Cacilhas, onde abancaram uma boa caldeirada pantagruélica, vindo juntar-se-lhes Mário Domingues e Carlos Silva e ainda o filho do general Farinha Beirão, funcionário do Governo Civil de Santarém.

Na primeira camioneta partiram Boris e Mário Domingues para Setúbal, onde por acaso Boris encontrou o sobrinho do Conde d'Armand (antigo embaixador francês e conhecido da família de Boris), o qual os levou de automóvel a ver os arredores e os acompanhou depois ao comboio para Faro.

Do mistério de Boris em Portugal, apenas se descortina, como se viu, um... «rabo de fora»: deve ser do grande «gato escondido» no alçapão de...«nuestros hermanitos!...

Pues, señores, seguiremos allá»...

  


  

 

VII - Das muytas e desvayradas coisas acontecidas a seguir

 

Vibrante de indignação e de nacionalismo, Mário Saa (ia dizer Marco António, a respeito deste novo César...), amigo íntimo e testemunha do excomungado Boris, lançara, ao retirar-se para o seu mestrado de Avis, um manifesto, projectando claridades e denunciando a intriga. Na 1.ª edição do “Diário de Lisboa", de Domingo, 12 de Maio (coincidência curiosa: o dia da festa de Joana d'Arc...) vinha a público com um retrato sério de Boris, o artigo "Um caso a considerar - D. Boris e a Catalunha livre".

Recorto:

Aproveitando um momento favorável de efervescência catalã surge D. Boris no tablado de Andorra (...) proclama-se (...) o único soberano contra a intromissão da França e da Espanha, em si encarnando a corrente catalã na administração dos Vales (...) A sua causa está ligada portanto, à causa de uma Catalunha unida.

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Apoiado pelo partido socialista que era o de maior garantia para o triunfo da independência catalã, D. Boris triunfa e capitula a par do triunfo e da capitulação de Companys, presidente da Generalidade (...). O socialismo na Catalunha era tão-somente o auxiliar, o meio para alcançar o fim.

Gil Robles é o carrasco de D. Boris: o gabinete espanhol persegue o adepto da política de Azaña.

Com estes precedentes é fácil insinuar a um país estrangeiro como Portugal que D. Boris é um perigoso inimigo da sociedade".

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E contudo o ideal que ele representa é útil à nação portuguesa: ideal que não é certamente o socialismo mas a causa catalã.

Esta causa é indispensável ao engrandecimento de Portugal na Ibéria (...). Uma Catalunha livre era o que outrora chamávamos Aragão, cujas alianças tantas vezes buscadas pelos nossos reis, por via de matrimónios, foram a grande política portuguesa e a causa de um equilíbrio peninsular perfeito.

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... que só o facto da independência catalã colocava Portugal em condições de excepcional hegemonia. (...) Portugal ganharia a hegemonia peninsular perdida, com a definição da independência catalã. Só os cegos não vêem.

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Valha-me aqui o grande rei português, D. João II. Tal rei havia de borisar Portugal: do nome de Boris faria um novo verbo e uma nova bandeira.

 

A seu tempo penetraremos no subterrâneo das ligações de Boris com os seus “Augustus aliados" para empregar a expressão de que ele próprio se serviu na sua proclamação (fotograficamente reproduzida no “Ahora" de 23 de Julho de 1934).

Quanto à acção de D. Gil,... recordemo-nos de que D. Boris é  protestante, ao passo que Sua Ex.ª Reverendíssima, o dr. Guitart, é bispo («les ministres et les évêques de France n'etaient' ils pas catholiques, Henri IV étant protestant...?» - segreda-me Boris...).

Pelo que respeita aos socialistas, Boris não é decerto socialista – nem de cátedra... nem de... fábrica. O que ele me diz é que é decididamente contra qualquer dos três únicos poderes que, na sua maneira de ver, conduzem o mundo: a judiaria, a maçonaria, e o jesuitismo, explicando-me que não é anti–semita por sentimento rácico mas apenas porque os judeus têm as finanças na mão (ex. o «Federal Reserve Bank» que empresta o dinheiro para fazer guerras e revoluções em toda a parte, pertence aos judeus Kuhn e Loebe); não é anti-maçon e anti-jesuita, senão porque é contra toda e qualquer associação secreta, forçosamente hipócrita e pescadora de águas-turvas. Politicamente entende indispensável a existência de oposição, que se resume na fórmula «laisser dire»: tal e qual como entre nós pensava, (nota ele) o grande Rodrigo da Fonseca Magalhães...   

Socialmente é absolutamente contra o capitalismo, explicando-me que todo o capital de um país deve ser aplicado nesse mesmo país -«nationalisme integral»-, e que todo o capital emigrante, por denunciar desconfiança na actividade económica nacional, deveria ser impiedosamente confiscado, forma segura de o obrigar a ser nacional. Assim não se trata de fazer guerra «douce» à Plutocracia abstracta, mas sim a guerra aberta ao Capitalismo concreto, forma única de dar trabalho a toda a gente. Boris não é pois comunista. Recordo-lhe a conhecida sentença do pai do positivismo: «Le communisme ne se laisse réfuter que par solution des problèmes qu'il pose". E Boris responde-me: "Oui: August Comte à raison».

E quanto à Espanha forte ou fraca... Um dia (há uns bons vinte anos ou mais, em tempo de várias prosápias de Vasquez de Mella...) também me veio à cabeça que, se em Portugal aparecesse um «chanceler de ferro» a Espanha seria facilmente desconjuntada, e Portugal, que possui uma unidade resistente a todas as vicissitudes, poderia como a Prússia quanto à Alemanha moderna, reconstituir o império ibérico... de resto, mesmo sem qualquer esforço da nossa parte, estaria na força das coisas que Portugal pudesse vir a ser a cabeça da Ibéria toda: Teófilo Braga tivera como a maior ambição da sua vida a elaboração de uma «História de Portugal»... «demonstrativa da previsão da  sua hegemonia entre os estados peninsulares»... Sob outro aspecto ainda se apresentaria a fatalidade: os três blocos nacionais naturais que haveria na Península: Portugal-Galiza, de um lado; Múrcia-Valência-Catalunha-Aragão-Navarra-Vascongadas, do outro; e no meio o simples agregado Andaluzia-Extremadura-Castelas-Leão-Astúrias em dissolução irreparável...

Mas não divaguemos em filodoxias gratuitas e voltemos às histórias simples do mistério… borial.

Metido em Portugal em 20 de Novembro, à tarde – donde fora Boris trazido? De Madrid. E para ali, donde fora levado? De Barcelona. E para Barcelona, donde viera? De Seu d'Urgell, onde se proclamara príncipe soberano de Andorra, em 11 de Julho de 1934.

Encontrava-se pois, hospedado no Hotel Mundial em Seu d'Urgell, reinando daí sobre Andorra – como daí o bispo exerce a sua soberania – e o seu reinado prolongava-se já por mais de uma semana, quando em 20 de Julho de 1934…

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Ia a narração neste ponto (interrompida que ficara na noite de 17 de Julho do corrente ano), quando em 18, ao voltar a casa, na tarde, minha filha Ísis me diz que o Sr. Príncipe viera procurar-me no meio do dia, porque estava aí um senhor de Lisboa... Fiquei sobressaltado, receando nova complicação, pois o prazo expirara em 15.

Boris aparece-me na noite, sorridente porém e começa,«scandat les mots», por detalhar, misteriosamente: «Dix heures venaient de sonner à l'horloge de la grande église»... estava ele ainda no leito. Através da porta que fica sempre entreaberta, ei-lo que ouve «au lieu do choeur des anges et de la musique celeste»... Governador Civil... quinhentos escudos... multa... etc., etc… Ergue-se para pedir o pequeno-almoço, e mal se aproxima do átrio «de l'helénique mansion», eis que uma voz o surpreende, dizendo-lhe em castelhano: «Como 'está usted’ aqui?» Repara então que tem diante de si o Sr. Seixas Serra inspector chefe da Polícia Internacional Portuguesa! Pede-lhe licença por minutos, vendo, de resto, que ele estava em animada conversa com a filha da dona da casa...

Lava-se, veste-se, quebra o jejum com... pêras verdes e apresenta-se. A donzela retira-se; e fala-lhe agora o Sr. Seixas, pêle-mêle, de muitas coisas visíveis e invisíveis – de Barcelona (donde acabava de vir), da vida cara na Espanha, das muchachas... e muitas «cosas más». Boris em contra partida, expõe-lhe a sua situação, pedindo-lhe para informar devidamente o Sr. Sub-director. Ele responde-lhe que com muito gosto o faria, e observa-lhe ao mesmo tempo que a melhor solução teria sido Boris haver aceitado a naturalização portuguesa, embora ele conhecesse as razões plausíveis que em sua consciência impunha; no entanto, iria fazer todo o possível para modificar o estado de coisas actual. Para o elucidar, Boris dera-lhe então o primeiro artigo de «O Diabo» que ele lera com visível interesse, prometendo adquirir os outros para estar ao corrente do que se ia passando por aqui.

Interrompe-se a palestra cordial, porque o Sr. Seixas tem de ir aos seus afazeres... Deixa a maleta, que trazia na real câmara, e sai, levando o Boris, para se barbear, ao... "baron von...Munchhausen" inexaurível fonte de histórias tão espantosamente verdadeiras que não há forma de saber se alguma delas será falsa... Tornam a encontrar-se por volta das três horas da tarde, levando-o então Boris a informar dos preparativos que se estão fazendo ao barco que o levará a Marrocos. Da boca do dono do barco, e do seu companheiro José Avelino ouvi eu depois esta parte da visita do Sr. Seixas: que Boris era uma pessoa respeitável; que podia estar em Olhão tranquilamente o tempo que lhe fosse necessário; que o Governo português nenhum propósito tivera de o molestar, fornecendo-lhe um passaporte para ele poder atingir Andorra, conforme desejava; que portanto podia seguir no dito barco de recreio e poderia voltar, caso surgisse qualquer dificuldade. Todas estas coisas ditas num tom de autoridade, e, tão inspirador de confiança, que qualquer dúvida acerca da personalidade de Boris se desvanecera por completo. Todo Olhão o sabia pouco depois, e, pode acrescentar-se, com regozijo. Por Boris e Avelino foi o Sr. Seixas acompanhado mais tarde até à gare juntando-se-lhes pelo caminho o meu colega Roma, velho conhecimento do Sr. Inspector. E nesta cordialidade findou este novo episódio.

  "Ét pourtant..." – coincidência desconcertante!- alguns dias depois, continuando-se agora mais tranquila e activamente os preparativos da viagem, eis que Boris é surpreendido com uma ordem certamente desconhecida do Sr. Inspector, mas ordem que veio lançar a perplexidade no ânimo de quantos se interessam aqui pela sua saída, como ele digna e legitimamente tem direito humano a desejar, com segurança além de com brevidade. A tal respeito é capital acrescentar de que o dono do barco foi quem mais desnorteado ficou, e receoso de se ver envolvido, conforme me confessou, nalguma peripécia da natureza ou analogia da sucedida na barra do Guadiana... esta impressão de desconcerto mais se acentuou quando, poucos dias depois, Boris veio a saber, por mero acaso e revelação espontânea do próprio, na presença do meu colega dr. Luiz Bernardino da Silva, que afinal a surpresa do Sr. Seixas na Pensão Helena fora simplesmente de ordem... técnica, porquanto em Vila Real de Santo António, no Hotel Guadiana, dissera diante dos hóspedes que lá estavam, em conversa, ao Sr. António do Ó da Silva, (primo do dr. Bernardino) que vinha a Olhão para saber o que Boris aqui estava fazendo...

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Sobre a nova situação criada a Boris com a ordem de apreensão do passaporte para se lhe adicionar ao nome a indicação de "sem nacionalidade definida" (apatride), e com a notificação para sair do País até ao fim desse mês, sem o que seria expulso, publicou o «Diário de Notícias» de 26 um comunicado, bem explícito e detalhado, de Faro, 24. Igualmente, «O Século» de 27 inseria uma notícia telefónica do seu correspondente em Olhão. E no «Diário de Lisboa» de 29, e em «O Jornal do Comércio e das Colónias» de 30, podia ler-se um comovido apelo à «hospitalidade portuguesa», terminando por estas palavras justas: «Pôr na fronteira, com um documento desta natureza, um homem de quem as autoridades portuguesas não têm a menor razão de queixa, é, para além da falta de hospitalidade, um acto desumano, pois o seu portador ficará condenado a andar de cadeia em cadeia, e de fronteira em fronteira, como se fosse um pária ou um criminoso».

Uma minúscula notícia de «O Comércio do Porto», assinalava, em 30, a dita intimação. Mas já mais longe, e antes, a má nova fora levada: Pois em 26, «Le Petit Marseillais» difundia «par fil sans fil et avion», através das terras provençais de Boris, ipsis verbis: «Lisbonne - Le conte Boris d'Orange prétendent au trone d'Andorre a été invité par les autorités a quitter le Portugal avant le fin de mois». 

Nas terras algarvias... a verdade foi que (como a aludida notícia de Faro a referia), «aquela determinação das autoridades portuguesas causou entre os numerosos amigos que o Sr. Boris possui em Olhão e nesta cidade, a maior surpresa».

Em Olhão – há males que vêm por bem... – quando em 25, tendo-lhe sido entregue o passaporte apostilado, Boris se encontrou como Ulisses na velha Odisseia, «chargé de l'execration celeste», e a notificação, transmitida pelo digno administrador, soava, aos seus ouvidos na tradução homérica: - «foge daqui, ó mortal, o mais indigno! Não me é permitido nem abrir o meu palácio àquele que a vingança dos deuses persegue, nem favorecer o seu caminho. Foge! Porque tens sobre ti a execração celeste...

Nesse momento psicológico solene... alguém, puro espectador, absolutamente alheado até ali acordando a imprecação e estremunhado ainda, decidira, supondo tratar-se de fita... policial, cortar o nó górdio, com a espada inflamada da serena justiça... Fora o caso, topando Boris casualmente o meu colega Bernardino, este, desapontado com a expulsão em perspectiva, se lembrara de consultar o dr. Carlos Fuseta, nosso ilustre amigo.

Anteriormente havia já o dr. Fuseta combinado comigo uma entrevista, pela curiosidade de conhecer Boris. Uma manhã de afazeres o impedira e eu não voltara a recordar-lho... Agora, livre e em vésperas de abalada e veraneio tomava todo o interesse pela situação. Informando-se com o seu proverbial cuidado e a minúcia jurídica necessária, e com a procuração plena de Boris encetava as diligências indispensáveis para o esclarecimento ou modificação do passaporte malfadado ou sua substituição por outro mais condizente com as condições e interesses de Boris: pois são passados oito meses ou mais sobre a sua entrada em Portugal, e Boris além do seu interesse político no caso de Andorra, tem interesses da sua vida e fortuna particular que reclamam a sua presença fora de Portugal, precisamente.

Quinze dias mais de permanência, são obtidos por intermédio do dr. Lister Franco, de Faro... Em seguida uma nova prorrogação pelo dr. Fuseta, que partia para Lisboa a tratar do caso (informações essenciais solicitadas ao dr. Velez de Lima, que se oferecera, nunca chegaram a vir...).

 

Neste entretanto, como o dr. Lister Franco lamentava um dia diante de mim que, tendo Boris estado tanto tempo no Algarve, se fosse de cá sem ter visto as maravilhas turísticas – só fôra uma vez a Monte Gordo e nada mais vira, dentro e fora do oceânico Casino a não ser ninfas... sevilhanas - sugeri-lhe aceitar o convite do dr. Lister que ia à Praia da Rocha, ao que veio juntar-se a gentileza do amigo José da Uva, filho, que indo para as Caldas de Monchique os levou no seu automóvel. Regressando no dia seguinte, não cessa Boris de me elogiar a magnificência da Mata das Caldas que muito se assemelha a "Les Escaldes" de Andorra, pela vegetação, frescura e profusão de águas correntes... Tanto lhe agradaram que dias depois lá voltou espontaneamente, a banhos: mas achou detestável, por exemplo, os banhos abrindo às 7 mas o "guichet" só às 8!...

Da Rocha, repete-me simplesmente o que o correspondente do Diário de Notícias em Faro transmitira ao público, em 19: que não tem rival em toda a Europa!... E se Boris conhecerá praias elegantes na Europa... Sem rival, bem entendido, a Natureza, na sua grandiosa vastidão, recortada e semeada de rochas fantasiosas... Mas sem rival também na desastrosa mediocridade no serviço hoteleiro que conviria melhorar a toda a altura – o dr. Lister Franco fôra disso testemunha irrecusável...

Em 15 de Agosto, às dez da noite, o dr. Fuseta telefonava ao dr. Bernardino, informando-o de que em Lisboa, junto das autoridades superiores, nada encontrara contra Boris e apenas pelo contrário, simpatia...

No dia seguinte, a hora prefixa, esperamos novo telefonema, Boris e eu. Um quarto de hora levamos a conversar sobre as letras do alfabeto sãnscrito, que ele me vai ensinar, e a discussão roda através da escrita japonesa e chinesa, para os hieróglifos... De repente, retine a campainha... Tomo o auscultador e o dr. Fuseta disse-me que na Polícia Internacional nada consta em verdade contra Boris, conforme acaba de saber. Modificam, sendo necessário, o passaporte actual, ou dão outro, para a Suiça, em vista das novas condições e necessidades de Boris. Que vá a Lisboa, nessa noite mesmo e no dia seguinte se regularizará o assunto.


Não identificamos o local preciso nestas fotos: provalmente praia da Rocha,
 praia do Carvoeiro ou em Albufeira.

 

Com a histórica maleta de mão – companheira indefectível -, Boris segue para Lisboa no comboio-correio. Na gare, ao dizer-me adeus – até à volta ou depois de amanhã – acrescenta receoso, que oxalá não vá cair nalguma «souricière»... Tranquilizo-o, dizendo-lhe que confie na boa vontade de todos...

- «Bon voyage et bone chance».

Era sexta-feira.

No Domingo, às 11 horas – uma excursão semi–científica às pedras semi - arruinadas da fortaleza de S. Lourenço construída no século XVII,  para defesa da barra em frente a Olhão - excursão combinada com o dr. Lister Franco e com ele, num gasolina de um amigo meu, em companhia de uns rapazes amigos, amadores de arqueologia e desporto, às 11 horas, ainda Boris não aparecera... Mando ver se viera efectivamente de Lisboa. Viera mas, fatigadíssimo, duas noites perdidas... Vamos pessoalmente demovê-lo, o dr. Lister e eu. Não resiste. Vem. E, conversando, declara-nos que fora afinal uma viagem inútil, ficando o dr. Fuseta de enviar o requerimento para novo passaporte

Pedras negras da fortaleza... três canhões de dois metros de comprido, enferrujados e encarapaçados de pedra e de limos, ainda visíveis à flor da água na baixa-mar... Boris não resiste a um banho de mergulho e à natação com os companheiros, em nudismo adâmico, ele... "Dieu fluvial riant de l'eau qui le chat ville" ("Regnier e Ravel")…, mas à saída espetando nos divinos pés, bicos dos ouriços que abundam... Tostado de sol, com a pele negro – tição toda a tarde levou a torrar-se depois, em cima da Ilha da Culatra, onde na volta arribámos para o almoço – jantar: conservas, ameijoas, polvo assado, uvas, melancia, que ele regava a vinho exuberantemente... Agora com a sua tanga clara, à torreira do sol, e demais de óculos negros a acabarem de compor a figura, dir-se-ia algum bruxo, faquir ou nigromante indiano, criando por si só, um ambiente de margem de Ganges naquela meridionalíssima beira da Ria, donde, comodamente sentados, à sombra de um toldo acolhedor o contemplámos nas suas evoluções aquáticas ou no seu remanso lasso de papo para o ar "crucificado", sobre a areia solta...

Ao saltarmos em Olhão – noite fechada quási – Boris estava radiante: a fadiga dissipara-se-lhe e dizia-me que fora um dia de vida dinâmica, como ele adorava, sem sombra de semelhança com a vida de cão que se via arrastado a passar aqui, em constante passividade e tédio...


Fotos tiradas por Francisco Fernandes Lopes no passeio à Fortaleza de S. Lourenço
no dia 18 de Agosto de 1935


Dia 18 de Agosto de 1935 (domingo) em passeio à ilha da Culatra. Da esquerda para a direita: Joaquim Mendonça Ramires, Mário Lyster Franco, Francisco Fernandes Lopes, Boris Skossyreff, Armando Beires, João Sales Socorro, Domingos João Monteiro (último sentado), Faustino Nascimento.

 

Do dr. Fuseta (já nas Caldas da Felgueira), nada de novo por enquanto.

Boris como o calor o massacra em Olhão, vai até Albufeira, fresca e limpa. Convite do dr. Bernardino. Volta ao fim de três dias, encantado, contando-me excursões maravilhosas..: a pé pela parte antiga da vila, muito pitoresca, com as suas escadas e as casas à moda do Bairro de Alfama; em barco, «out–board» do amável senhor Joaquim Queiroz Mateus, aos olhos de água doce que borbulham, em pleno mar, a mais de vinte metros da praia arenosa e rochosa; a nado, na hora «chic» com toda a companhia amiga masculina...

Mas a mais saborosa recordação trouxe-a, confessa-me, de casa do dr. José Emílio: os bolos, de indústria caseira, em variadíssima e deliciosa profusão, que acompanharam o chá inglês que Boris bebeu abundantemente, como um russo... «nato», na frase espirituosa do dr. Bernardino.

 

Fechado o longo parêntese, retomemos o fio do discurso regressivo

 

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Passaporte datado de 29 de Outubro de 1935, enquanto residia em Olhão, que permitiu a Boris sair de Portugal no final do ano.

 

 

 


  

« Há seguit la Seca, la Meca i la Vall d'Andorra...»

 Ora... dispunha-me a ir buscar, lá bem a Seu d'Urgell, o fio do mistério que desenrolaria na continuação da «TRÁGI-COMÉDIA ANDORRANA» em cena – com a implacável minúcia já proverbial – tecendo a fábula escrita com a matéria-prima da inédita revelação... bórica e da publicada opinião ibérica: catalã (do católico «El Mati» e do espanholizante «El Dia gráfico» ambos do domingo 22, contemporâneos da trazida para Barcelona), e madrilena (dos vários matizes «Heraldo», «La Voz», «Debate», «Diário», «Luz», «Libertad» e «A B C»), para todo o... «iter hispanicum», desde 23 de Julho ao 20 de Novembro já referido, Direcção Geral de «Seguritad, Jusgado de Guárdia», Juiz especial dos vadios e meliantes, condenação a um ano de internamento, apelação, julgamento à porta fechada, revogação com volta para «Carcel Modelo» e expulsão vinte dias depois, atrabiliariamente, «manu militari» por Valência de Alcântara... dispunha-me a mais este sacrifício em favor gratuito do decantado e excomungado Boris I e... único, cuja odisseia (com circes várias) explanaria ainda, desde a penetração nos Vales até ao reinado expontâneo no exílio,  com os episódios múltiplos de Palma, das Américas, da «Riviera», da «memória», da expulsão pelos «veguers», da proclamação final, reservando-me depois segui-lo, desde menino e moço, na sua vida anterior-corte, liceu «Louis Legrand», Universidade de Oxford («M.A.»), Grande Guerra, e em suma «de capitão da marinha a aspirante a rei» (conforme «Diário de Notícias» de 25-07-34), dispunha-me a toda esta longa tarefa, em sucessivos capítulos, interminavelmente (tal  era o entusiasmo pueril!), quando acabei... eu próprio por me engolfar num daqueles deliciosos sonos... de cinema, irresistíveis, sob o silêncio, como sob o sonorismo metralhador...

Naufragado pois neste doce mar nervântico, eis que de súbito, do fundo do abismo lúgubre, uma visão se eleva e no horizonte se detalha... visão dantesca – ou pedantesca – não o saberia dizer.

É, primeiro, um esgar caricatural, enorme e indefinido, que se esboça, perpassa, recua vertiginoso, e microscopicamente se precisa em feitio de indicador verticalmente cruzado sobre uns lábios satânicos a sugerir silêncio: - Chut – baixinho em confidência...

Pelo dedo reconheço o gigante: é Roberto do Diabo, indubitável meu fiel amigo de menino e moço... «Que é isto?» - sobressalto-me...! Roberto dilui-se porém e na minha expectativa cheia de ânsia, volve então do caos, rapidamente, até à diferenciação perfeita, um castelo feudal, de aspecto selvático, donde a porta se entreabre e donde sai o Diabo... Ah! Nunca o vira tão bisonho! Levanta penosamente a face, encara-me franco e sério, e, baixando-a de novo quase implorativo, solta «Cesset superstitio!», como que obedecendo a uma fatalidade soberana...

- Que é isso, Diabo amigo?...Tanta desolação em tamanho poder?!...

Mas ele, de fronte caída sempre, resmungava «Cesset superstitio»!

Um clarão intuitivo me trespassou, e, tocado da graça diabólica, suspeitando, alfim, que o inferno em peso se tivesse movimentado contra Boris e não querendo que eu continuasse a mandá-lo para o Diabo que o carregue (nem no inferno te querem já, ó infeliz!), insisti, capciosamente: - Diabo amigo, sê humano, sê justo. Repara que se trata do novo Ahasvérus, deixa-me vender o meu peixe... A completar o que já me ouviste, contar-te-ei de como nas mãos de nuestros hermanos andou de Herodes para Pilatos até que se resolveu a usar a barba e fato-macaco (Samper sendo o cônsul) e o exportaram, de contrabando, para a Lusitânia.

Depois várias: como peregrinou e acompanheirou com a americana e a sua filha milionária, como, turistando pelos Vales, os acordou do seu sono dogmático, e teve de ser prudente como a serpente... «comunicando a sua actividade a todo um bispo» (no dizer do «Heraldo»), despertando a memória histórica do Concelho contra o usurpado co-principiado herói – cómico do presidente gaulês, e, forçosamente exilado, trombeteando depois em Seu d'Urgell, guerra feudal ao episcopal co-príncipe legítimo, com o proclamar-se, ele, Boris, «Príncips Soberanus et Supremus Andorrae i Defensor de la Fé»: e intitulado agora «Boris I, Príncipe dos Vales de Andorra e lugar-tenente de Sua Majestade o rei de França» (em teoria o Rei reina no exílio...), reinando... ou principiando, nove dias e oito noites, com Mistress Florence Mazmon à ilharga... Depois salpicando o ante-regno com a malfadada digressão à maiorquina Palma assistirias à sua contenda com o Marquês de Repaldiza, «metre-chanteur do Black Hole of Calcutá,» antro de perversão promíscua e de fungadela de cocaína (como traduzo de «Palma Post» de 3 de Setembro de 1933), acabando amavelmente expulso, por ter de transportar por «sus reales» a Barcelona e, de novo, a Les Escaldes ; e em seguida, remontaríamos aos tempos de Pedro o Grande, quando convidado seu bisavô, da casa francesa de Orange – a região dos amores de Petrarca e Laura – transumou com a domesticidade para a Rússia euro – paisante... Assistirias à vinda de Boris ao mundo, em 12 de Janeiro, portanto sob o signo de Aquário, que faz os homens «de carácter vivo, arrebatado, colérico, de forma alguma, patifes, mas gritadores, déspotas, autoritários... saltando barreiras, não vendo mais que o seu pensamento e seguindo-o até à sua realização «...conforme te pode ensinar Madame Green no seu ‘Manual da Quiromante, em cuja capa a Empresa Lusitana Editora estampou (provavelmente com tua autorização) o teu retrato capricórnio, ou, se preferes o ‘Borda de Água’, que te explicaria que tais homens ‘dotados de uma sólida inteligência com aptidões para julgar, cultivando as ciências, vêem as coisas por um prisma superior, dedicam-se à política mas não são vulgares caciques, porque são bastante desinteresseiros’»... (!). Aprenderias a definição e origem do seu nome, provençal, não eslavo, sendo Boris o simples plural de cabana típica, como Mistral a menciona, por exemplo, nestes versos célebres:

L' amour emplis de joio

La Bori e lou palaio...

Segui-lo-ias depois nos anos de aprendizagem, cortesão em S. Petesburgo e em Schoenbrunn, colegial em Paris e no «Magdelene Colegge», até ao grau de «magister artium». Encontrá-lo-ias, travestido em «captain», nos auto-blindados de Locker–Lamprom, combatendo no Continente, e, na Rússia Kerenskiana, indo, pelo transiberiano, em missão naval, com o comodoro Gregory, até Vladivostok e daí, por Yokohama, até aos E.U.A., vê-lo-ias no regresso, salvar, da Rússia bolchevista, as embaixadas aliadas refugiadas já em Vologda, e de Arkangelsk e de Murmansk, voltar através do Glacial infestado de «U-Boote», à «England», fazer jornalismo com um primo poeta em combate rijo a negociantes, tendo por fulcro a falsa versão da batalha da Jutlândia, casar-se, viajar com passaporte diplomático, descasar-se (por «enfantillage» como Biron se casara por aposta...), vir à Holanda, ser feito barão por graça real e, automaticamente neerlandês agora, viajar sempre, pela Europa próxima e pela América distante, lançando negócios aqui e ali, aprendendo espanhol na República da Colômbia, vilegiaturando, agora ou logo, na «Côte d'Azur»; e, depois, Cannat (Bouches -du Rhône) onde tem a sua casa e a sua esposa - «Baronne  de Skossyreff», se não acreditas  posso mostrar-te  um cartão de agradecimento, e podes indagar se o seu nome de «jeune fille», seria ou não «Marie-Louise Parat de Gassier»-, turisticando sempre, ter acabado por descobrir, numa tarde de Junho ( «aprés-midi d'un faune...» ) de 1927, a «mínima y hasta entonces sosegada» República pireníaca, na qual não houve mais «paz ni sosiego, ni descanso, hasta que fue, expulsado»... conforme podes ir ler ao «Heraldo de Madrid» de 10 do XI de 34... porque Andorra continua a ser na Europa um grande escândalo em face do 14.º ponto de Wilson e da Sociedade das Nações... E só então, minuciosamente fundamentado submeterias o homem das barbas e do monóculo ao teu juízo final.   

Mas o Diabo, fortalecido com toda esta retórica, retorquia:- «Cesset, superstítio»!

Ele não é mau rapaz, mas não vale nada ao pé dos grandes aldrabões políticos da história... Pois não houve já quem se apoderasse do trono de Constantinopla? Outros do império dos Czares? Um que, em pleno Século XVIII, assegurava ter conhecido os Apóstolos? Não enganou o célebre Anthony Sherley, Felipe III, depois de ter intrujado o Xá da Pérsia e o papa Clemente VIII?...

- Diabo amigo, parece-me que estás a plagiar o Zulueta de «EL Debate» de 11 de Agosto do ano passado... Andas um pouco atrasado... Toma lá «Le chasséur français»... o n.º 546 deste Setembro corrente, para aprenderes «Ce qu'íl faut savoir d'Andorre  en 1935».

Estupefacto e bisbilhoteiro, condescende um momento e lê que «desde que o principado existe, os andorranos sempre se têm felicitado por terem dois protectores», porque com efeito, a uma atenção dos espanhóis, sucede, dentro em breve uma atenção dos franceses, pois trata-se de assegurar um equilíbrio de influências tão perfeito quanto possível...

- Harmonia celestial, hein?

- … Os andorranos têm por vezes escutado com ouvidos condescendentes demais certos aventureiros internacionais à cata de um affaire... Houve primeiro um projecto de exploração de minas, depois, de lotaria... depois... depois um senhor de monóculo, que dizem que é russo julgou que, sem mandato algum, faria valer os direitos do duque de Guise, herdeiro de Henrique IV, ao senhorio de Andorra antes de distribuir manifestos assinados Boris I e de publicar em catalão, um «Boletim oficial do governo provisório de Andorra!» Um maluco! No género de Jaime I, ou um malicioso, de resto expulso do principado.

-Vês?

Mas o Diabo não se dava por convencido...

- Andorra não é nada, não presta para nada...

- Diabo amigo, precisas de ler o livro recentíssimo do dr. Luiz Pacheron - «L'Andorre»... Lá aprenderás que «Andorra é uma Tebaída ideal» que a F. H. A. S. A. «criou o duplo prodígio da electrificação e da viabilidade», que «o socialismo cristão reina nas aldeias e herdades», e que o único perigo que desponta no horizonte é... o «alcoolismo». Desculpa, mas estava a supor que tu é que terias inspirado a Sir Samuel Hoare as solenes Heresias que acaba de proferir.

«…Somos da opinião que as pequenas nações tem o direito a uma existência independente e à protecção que pode ser-lhes colectivamente dispensada, para preservação da sua vida nacional»... Cremos igualmente que os povos atrasados têm o direito sem prejuízo da sua independência e da sua integridade, de esperar assistência da parte dos povos mais avançados para desenvolvimento dos seus recursos e organização da sua vida nacional»… Porque (fala agora o dr. Porcheron), «en realité, Les Vallées d' Andorre constituent une seigneurie»...«c’est une émanacion du droit féodal»...; «Les Vallées d'Andorre n'ont pas en droit international, une personalité independant, et ne peuvent ni conclure des traités, ni adhérer a des traités avec les autres nations»... « La suzeraineté des deux co-princes est bien douce»...«N'est-ce pas lá un peuple hereux?»... La hideuse politique, décevant et stérilisante s'est arreté aux frontières»...

- Basta, esculápio de mazelas sem cura e patrono de causas perdidas... Maldita a paciência!... Estás a gastar cera com ruim defunto...

E, sem mais, abrindo-me de par em par as portas férreas do castro infernal, «mi mise dentro alle segrete cose».

O que por lá ia!...

«...sospiri pianti ed alti guai»

« risonavan per l'era senza stelle...» «Cesset superstitio!... Cesset superstítio!... Cesset superstitio!...

«Diverse lingue orribili favelle».

«parole di dolore , accenti d'ira».

«voci alte e fioche e suon di man com elle, facevano un tumulto!...

E fechando-as quási logo, num ápice e com fragor tremendo:

- Apre! Com tanta injecção... «bórica», por pouco que a literatura se me não derrete em... «borato»!

Compreendia agora tudo. Irremediavelmente resignado limito-me a tranquilizá-lo:

- Augusto Mensageiro, recorrera à sua soberana intercessão porque me parecera que, Príncipe das Trevas, só tu deverias possuir a correlativa virtude do «fiat lux»...Pois bem! Como pelo teu órgão «lux facta est», e em consequência o «desideratum» fundamental parece atingido (pois o dr. Fuzeta acaba precisamente de enviar o requerimento de novo passaporte) condescendo contigo e vou pôr uma rolha na boca... Alhures em escritura livresca talvez, esplanarei, com a reedição do já que disse, tudo aquilo que ainda me restava dizer. E será (permite-me o anúncio): «Tragicomédia andorrana – Boris I, sa chronique , son odyssée». Posso segredar-te que, sendo eu da espécie daqueles que põem o carro à frente dos bois, ou que compram a couve primeiro que a carne, até já aqui tenho a capa do... cronicão com uma estampa da Casa La Vall e seu escudo. Projecto do artista Adriano, em estilo rústico adequado...No entretanto, à roda viva infernal oferecerás da minha parte este recorte de uma folha de couve provinciana, de há mais de vinte anos, em que eu já rabiscava disparates sem originalidade... 

«O solitário Agathon – conta a lenda – conservou durante três anos uma pedra na boca, a fim de se acostumar ao silêncio. Um outro irmão, entrando no meio de uma assembleia, disse consigo: «Tu não és mais do que um burro. Faze pois como o burro que escouceia e não fala, recebe as injúrias e não responde nada». Um outro irmão, expulso da mesa, não respondeu: Quis parecer-me com o cão que, quando o enxotam se vai embora».

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E com a narração simplória deste sonho-pesadelo dou por decifrado, nestas satânicas colunas o... enigma pitoresco do Prince «charmant», que, digressando pelas sete partidas da Orbe, em perigos e guerras esforçado, se aventurou em La Maravilha: e, não contente com ter «seguit la Seca, la Meca i la Vall d'Andorra» ainda depois «andou por Seca e Meca e Vale de Santarém» – coincidência curiosa, problema filetnológico que julgo, pela primeira vez se oferece, como brinde à intelectualidade portuguesa.

   «À quelque chose... Boris est bon»

 

Francisco Fernandes Lopes

(1) Ahasverus é o nome lendário dado ao judeu errante e “eterno estrangeiro” aonde quer que vá em sua peregrinação permanente. Esta lenda diz que Ahasverus era um carpinteiro de Jerusalém que estava trabalhando na Sexta-Feira Santa, em que Jesus passa humilhado, açoitado e sangrando, com a cruz às costas. Jesus deteve-se um instante à sua porta, descansando um pouco. Ahasverus parou seus afazeres, chegou-se perto do divino nazareno e, empurrando-o, disse-lhe para seguir. Jesus apenas olhou-o e respondeu-lhe calmamente que ia mas que ele ficaria até à sua volta...
E Ahasverus está até hoje errando pelo mundo, sem caminho certo, sem morrer, mas sem descanso, esperando e esperando pela volta do Senhor.