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Raul Veríssimo

Raul Martins Veríssimo nasceu em Lisboa em 21 de Outubro de 1919 e faleceu em Faro a 13 de Março de 2003.

Foi um dos mais importantes protagonistas da luta anti-fascista no Algarve no final da década de 1940, tendo organizado o célebre Encontro de Bela Mandil, provavelmente o encontro mais importante do MUD juvenil.

Veio para o Algarve com a família, fixando-se em Olhão muito novo, onde fez a instrução primária. Em Faro frequentou o Liceu e recorreu mais tarde ao ensino livre, sempre com muito sucesso, apesar de repartir os estudos com a ajuda no estabelecimento de venda de tabacos do pai que, aliás, era conhecido em Olhão como o “Manuel dos Tabacos”.

Por motivos económicos e de saúde não frequentou a Universidade.

O serviço militar foi prestado em Évora com muito sacrifício, atendendo a problemas de saúde que o Raul Veríssimo contraiu na altura, e ainda a algumas objecções de consciência que tinha contra a instituição militar. Terminado o tempo mínimo de tropa, continuou estudando as matérias de interesse académico e cultural, principalmente matemática, português e filosofia, tendo-se tornado um exímio professor (por ex., no Colégio Algarve, de Faro, onde trabalhou como Prefeito), apesar de não ter formalizado qualquer licenciatura.

O Raul casou entretanto, mas continuava a juntar-se com os amigos Manuel Madeira, José Lopes de Brito, António Simões Júnior, António Ramos Rosa, entre outros. As reuniões eram, como de costume, no Danúbio. Uma figura importante da terra que se juntava algumas vezes, quase sempre tarde, quando regressava a sua casa depois de um longo dia de trabalho no hospital, era o Dr. Francisco Fernandes Lopes, que muito admirava as suas qualidades intelectuais.

Após o fim da II Guerra Mundial a ditadura de Salazar tentava adaptar-se ensaiando uma “abertura democrática” fingida, o que deu oportunidade à oposição para se organizar e aparecer, através do MUD e do MUD juvenil.

De facto, no ano de 1946, mercê da unidade activa de muitos democratas que se opunham à Ditadura, entre os quais se encontravam professores catedráticos expulsos das suas Universidades, como Bento de Jesus Caraça, Pulido Valente, Rodrigues Lapa e outros, António Sérgio e Mário Soares, este ainda jovem, também figuravam nessa primeira comissão, e foi através deste último que se formou no Algarve a organização do movimento antifascista, nomeadamente em Olhão, com a presença de Raul Veríssimo, Manuel Madeira e José Lopes de Brito, mais tarde substituídos por Joaquim Carlos Silvestre, Júlio Fradinho, Vitoriano Rosa, Frederico, Ivo Madeira, e outros.

No fim do ano de 1946 já existiam em quase todo o Algarve comissões do MUD Juvenil, funcionando nas sedes dos concelhos e/ou freguesias e o Raul Veríssimo foi um dos grandes impulsionadores deste Movimento no sul do país.

Em 1947 a Organização Internacional da Juventude resolveu promover a «Semana da Juventude» e Portugal aderiu, através da Comissão Central do MUD juvenil, de Lisboa, seguida pela Distrital de Faro e a Concelhia de Olhão. O Raul e o Ramos Rosa, de Faro, foram os elementos mais destacados na efectivação do acontecimento, precisamente, no concelho de Olhão, em Bela Mandil, que reuniu cerca de mil pessoas, vindas de quase todo o Algarve. Este acontecimento foi bastante conhecido na altura, porque durante a manifestação houve uma inesperada intervenção da Polícia e GNR ameaçando todos os participantes, obrigados sob a força das armas a dispersar, o que eles (participantes) recusaram, sendo depois escoltados até ao centro de Olhão aonde foram finalmente dispersos sob rajadas de fogo para o ar, que não matou nem feriu ninguém. Foi a maior manifestação antifascista no género, feita em Portugal, com repercussão em várias capitais da Europa e na URSS, e transmitida para outros países.

Dois dias depois desta ocorrência, José Lopes de Brito foi detido pela PSP na rua do Comércio, em Olhão. Distribuía por mão própria o manifesto redigido pela comissão local, relatando com veemência o acontecimento dos dias anteriores em Bela Mandil. O Raul Veríssimo que, da porta do Café Danúbio, viu o acto da detenção, saiu a correr do lugar onde estava, dirigiu-se ao polícia que detinha o Brito, dando-lhe ordem de prisão, e disse-lhe: «eu também sou responsável pelo trabalho que este meu colega está fazendo: se ele vai preso, eu também vou!». E de facto foi ao lado do Brito para a esquadra da Polícia, onde ficaram presos porque o Raul não quis deixar o amigo sozinho. Esta história é bem um retrato do comportamento ético do Raul, misto de pureza inteligente e ingénua, consciente e determinada. E foi sempre assim pela vida fora: prejudicando-se a si e por vezes também a sua própria família, para ser fiel à sua integridade moral, alheio que era a «interesses» desafectos à dignidade do seu carácter.


Após Belamandil (provavelmente 1948),  da esquerda para a direita e em baixo: 1º não identificado, 2º Joaquim Silvestre, 3º não identificado, 4º Vitoriano Rosa, 5º Manuel Farracha; em pé: 1º Manuel Madeira, 2º Júlio Fradinho, 3º João Vargas, restantes indivíduos não identificados, excepto o último à direita, que é Raul Veríssimo

Um história curiosa contada por Manuel Madeira durante a sua palestra sobre Raul Veríssimo, em 27 de Fevereiro de 2010, tem interesse simbólico nacional:

Quando entrei sob prisão, em Caxias, a 17 de Abril, 1947, poucos dias depois do Raul e do Brito, fui casualmente «depositado» na cela comum onde estava detida a Comissão Central do MUD Juvenil, constituída por jovens, como Mário Soares, Júlio Pomar, Pulido Valente (filho), Fidelino Figueiredo (filho), Antunes da Silva, que eu já conhecia, e outros, num total de 14, dormindo em camas de dois andares. O Raul e o Brito estavam noutra cela, também com mais pessoas, todos presos pelos mesmos motivos. Só dei pela presença deles e eles de mim, no refeitório comum, numa sala enorme, onde tomávamos as refeições, guardados por polícias reforçados. Não podíamos falar uns com os outros, excepto nas casernas que habitávamos. Os interrogatórios e as torturas respectivas ocorriam na sede da Pide, em Lisboa, na rua António Maria Cardoso. Para o efeito, éramos transportados de ida e volta (quando havia regresso), numa carrinha própria para o fim (a ramona), conduzida pela polícia. Relato estes pormenores, porque havia normalmente visitas individuais em sala própria, e um dia, por motivo de aniversário de Maria Barroso, ou outra razão, então ainda namorada do Mário Soares, ela trouxe-lhe um molho de cravos vermelhos que ele distribuiu pelos colegas de cela, cabendo um cravo a cada um. Impensadamente, ou talvez não, todos pusemos uma flor na lapela e assim entrámos, como era costume, no refeitório para almoçarmos. Conto isto, porque, entre outros, o Raul e o Brito tinham entrado primeiro e já estavam sentados. Foi quando os vi de perto, trocando com eles expressões fisionómicas de solidariedade afectuosa, por ser proibido conversar. Mas isto durou muito pouco tempo, porque, o chefe dos guardas, ao reparar que os presos da sala 13 (que era a nossa) traziam cravos nas lapelas, mandou levantar os que já estavam sentados à mesa, dando ordem imediata a todos para regressarem imediatamente à caserna onde «residiam», com uma ordem de castigo, válida por oito dias, para terem as refeições na cela, sem praticamente condições compatíveis. Penso sozinho comigo, sem dizer a ninguém, que esta estória foi uma antevisão malévola da «revolução dos cravos», vinte e sete anos antes…, que só agora é contada em público.

 

Por essa época, Raul Veríssimo terá entrado no Partido Comunista e ter-se-á tornado no elemento mais “prejudicial” de todos os oposicionistas locais, a acreditar no que é referido em extenso relatório da PIDE, datado de 1 de Agosto de 1949 (encontrado na Torre do Tombo pelo Dr. Idalécio Soares):

O Raul Veríssimo é, sem sombra de dúvida, um dos mais activos elementos do ‘Movimento’ e o mais prejudicial para a Nação, pois, aproveitando o ensejo de exercer o ensino particular, embora sem possuir alvará, exerce sobre os alunos uma influência política tal, que alguns pais se queixam já das ideias bolchevistas demonstradas pelos filhos que, na quase totalidade dos casos, deixaram de respeitar os pais e se afastaram por completo dos seus deveres religiosos que anteriormente cumpriam. Haja como exemplo o sr. Josef Seabo, treinador do Sporting Club Olhanense que, segundo declara publicamente, se viu forçado a castigar rigorosamente duas filhas que frequentavam o «Colégio» do dito Raul Veríssimo. Os alunos deste indivíduo – de ambos os sexos – passaram automaticamente a interessar-se por literaturas de autores de obras prejudiciais à sua boa formação moral e política; a isto não é alheio o Joaquim Farracha que, possuindo uma livraria, adquire e lhes facilita os livros necessários aos fins em vista e que, naturalmente, não aparecem à venda ao público.

 

Em Outubro de 1950 foi preso pela 2ª vez, por no dia 18 ter participado no tributo prestado à memória do ex-Presidente da República, Manuel Teixeira Gomes, em Portimão, quando os restos mortais dele foram trasladados da Argélia para a sua terra natal. Tinha saído de Olhão com a sua irmã Luciana num autocarro organizado pela família Farracha, em que viajaram também muitos democratas desta terra. Foram todos presos pela PIDE no autocarro, depois da manifestação, levados para Lisboa, de onde só regressaram quase um mês depois.

O Raul retomou o seu ensino como explicador, mas pertencia à direcção local e regional do Partido Comunista, sendo extremamente rigoroso no carácter clandestino das suas actividades políticas dentro do partido, que era aliás o mesmo rigor que tinha em todas as outras facetas da sua vida. Numa ocasião, recusou-se a receber um amigo vindo de Lisboa para o visitar porque, em vez de se lhe dirigir directamente, procurou o Joaquim Silvestre, que conhecia em Olhão e era da confiança de ambos. Só que este procedimento era contrário ao que estava estabelecido. É preciso acrescentar que, nas condições de ameaças e perseguições constantes em que se vivia nesse tempo, talvez difícil de compreender hoje, todas as alterações aos acordos assumidos, punham em risco a segurança de quem estava envolvido no combinado.

Decorria o ano de 1951, quando, estando em casa, a altas horas da noite, bateram à porta. Era a polícia política, pretendendo disfarçar-se com o nome de Epifânio (amigo do Raul), para poder entrar. Mas, quando a porta de casa foi aberta e os pides entraram, já o Veríssimo tinha desaparecido, fugindo pelas escadas traseiras do prédio que conduziam à açoteia, de onde ele se atirou, escorregando junto à parede, para a rua oposta à entrada da casa, onde a polícia continuava a procurá-lo, com a família em alvoroço, não tanto talvez como o dos facínoras que vasculhavam tudo, em vão!

Entretanto o Raul, toscamente vestido, escapara-se pelas ruas silenciosas da noite morta e foi bater à porta do Chalé da família Luís Saias, depois das «quatro estradas», a caminho de Pechão. Foi recebido com afecto e medo e, no dia seguinte de manhã, saiu e foi encontrar-se com um amigo que o recolheu até que, dias depois, seguiu para Messines de Baixo, onde viveu várias semanas escondido no sobrado de um palheiro de pessoa sua familiar. Mais tarde deslocou-se, incrivelmente, para Olhão, viveu clandestino, em casa de Nuno Cabeçadas, que de noite o acompanhava vestido de mulher por ruas, a horas mortas. Sabemos agora que ele se encontrava com a sua família, secretamente, até que um dia saiu da casa do Nuno, com destino ao Porto, iniciando a viagem por caminhos ínvios para minimizar o risco de ser seguido pela polícia.

Cerca de um ano depois, em Lisboa, conseguiu emprego precisamente na Companhia de Diamantes de Angola em 1952, onde desempenhou um importante cargo, junto da própria Administração, dirigindo a existência de uma Revista Científica e Cultural de projecção internacional, nos domínios de Antropologia, Biologia, Ciências Naturais, Etnografia e Sociologia. Nesta actividade, e durante todo o tempo em que permaneceu na «Diamang», o Raul recebeu merecidamente os maiores encómios da Administração, dos próprios colaboradores da Revista, alguns, cientistas de outros países, dos quais ele traduzia para português os respectivos artigos. Também os seus colegas e colaboradores o admiravam, tanto pelo seu trabalho como pelo relacionamento afectuoso e humano, merecedor da estima que tinham por ele.

Uma vez, tratava-se de um artigo extenso, como quase todos (a revista tinha um formato de 31X23cm e nunca menos de 250 páginas), e o autor era russo e nessa língua escrevia. Além das revisões, o Raul supervisionava os trabalhos gráficos na própria tipografia, onde permanecia sempre, durante a impressão da obra. Era, para todos os efeitos o Editor e os livros não saiam para ninguém, antes de o administrador ver um exemplar, que era sempre o primeiro, para ser aprovado. Desta vez, porém, o Raul foi chamado ao gabinete do chefe que, com ar um tanto surpreendido lhe perguntou: «o senhor Veríssimo também sabe russo?»; «sei, sim, senhor Administrador!»; «mas como foi isso, e porquê?»; «sabe, respondeu o Raul, comecei muito cedo a estudar literatura e interessei-me bastante por Dostoiewsky que me despertou o gosto pela língua!»; «Ah!», finalizou o outro. E tudo ficou por aqui... apesar do Raul Veríssimo ter ficado muito apreensivo: será que a polícia política que visitava frequentemente a Diamang e trabalhava até para os seus serviços, iria encontrá-lo finalmente, quase 20 anos depois da fuga?


Início da década de 1970, no Parque Eduardo VII, em Lisboa.

A verdade é que apesar de clandestinamente ter continuado a exercer actividades partidárias com os camaradas António José Saraiva e Carlos Brito, junto de comissões de outros intelectuais, incrivelmente a PIDE perdeu-lhe o rasto desde a sua fuga de Olhão, em 1951, até ao fim da ditadura, em 1974!

Curiosamente foi só após o 25 de Abril de 1974 que Raul Veríssimo foi despedido por ser comunista. Surgiu nessa época nas bancas dos jornais e nas livrarias do país a «Revista do Povo», cujo Director era Vitoriano Rosa, natural de Olhão e nosso amigo desde muito cedo, como já foi referido anteriormente. Muito íntimo que era do Raul, convidou-o a colaborar neste primeiro número da Revista, e assim aconteceu, com o poema «Liberdade», dedicado «Ao querido camarada Álvaro Cunhal», assinado «Raul Veríssimo», com o símbolo do Partido Comunista.

E foi uma bomba! No dia seguinte ao aparecimento da revista em público, o Raul, sentado na sua secretária, foi chamado com urgência ao Administrador que, mostrando-lhe o poema, perguntou: «foi o senhor que fez estes versos?»; «sim, fui eu, com muita honra!», respondeu. «Pode retirar-se», foi a ordem. E nesse mesmo dia, feitas as contas pelo contabilista de serviço, foi demitido da Diamang, depois de 22 anos de exemplar desempenho de funções complexas. Tinha na altura 55 anos de idade. Viveu mais 29 anos desde esse momento, dedicado quase inteiramente à luta pela existência de um mundo melhor, de acordo com os seus princípios, a que foi leal até ao fim.

Uma vez livre do seu emprego, veio para Olhão e manteve a actividade política e ética que sempre o motivou, desenvolvendo acções de reorganização partidária local, sofrendo e tentando vencer obstáculos que nunca o inibiam, nem mesmo quando ameaças se transformavam em agressões físicas, como aconteceu na efervescência das disputas partidárias pós 25 de Abril.

 

António Paula Brito, 2010 *

*Este texto está baseado e tem extensas transcrições do documento escrito por Manuel Madeira, a propósito da palestra proferida por ele próprio em 27 de Fevereiro de 2010, na Sociedade Recreativa Olhanense. Para ver o filme da palestra clique aqui. Ao lado estão as fotografias da palestra: